Colunistas João Botelho

1, 2, 3, teste: Fauna Primavera 2016 (Santiago, Chile)

(Reprodução/Facebook Fauna Primavera)Ir a um festival de rock em outro país (o Fauna Primavera, no Chile, foi minha segunda vez) te permite, além de ver os artistas, claro, experimentar o que funcionar melhor ou pior do que nos grandes festivais que rolam no Brasil.

Na parte legal, o destaque foi a distância entre os palcos principais. Uma caminhada mínima os separava, fazendo com que a transição de um a outro não te obrigasse a perder músicas, seja do show que termina seja do que começa na sequência. Em comparação com o Lollapalooza Brasil, é uma tremenda vantagem, já que, na minha última vez, gastava até 10 minutos para ir de um palco a outro.

O sistema de consumo também funcionou melhor. Em vez de fichas com o valor estampado, você recebia uma pulseira com um chip e carregava nela o valor que quisesse. Assim, não há o risco de perder as fichas. E para melhorar, as tendas de comida aceitavam o pagamento tanto com a pulseira quanto em dinheiro.

Agora vem a parte ruim. Você tinha que pagar pelo copo de plástico que usava. A ideia é boa: fazer com que as pessoas não descartem facilmente o copo, reduzindo o consumo de um material tão nocivo ao meio ambiente quanto o plástico. Mas houve dois problemas na execução dessa ideia. O preço do copo foi alto, mil pesos chilenos, que equivalem a cerca de cinco reais. O valor poderia ter sido até a metade disso que, creio, ainda continuaria inibindo o descarte.

O segundo problema foi a troca coletiva de saliva e bactérias que a cobrança pelo copo gerou. A explicação é simples: na hora de pegar a cerveja, as/os atendentes misturavam os copos e te devolviam, inevitavelmente, outro. Eu sobrevivi, mas alguém pode não ter gostado do que encontrou nos seus lábios ao se olhar no espelho na manhã seguinte.

O Fauna Primavera também serviu de teste para modelos de shows e bandas. O que funciona melhor: a interação com o público ou a bolha, em que o artista entra ao começar sua apresentação e de que só sai para agradecer à plateia? O que você prefere: a banda que foi se desfigurando com o passar dos anos mas segue produzindo material novo e o tocando ao vivo, ou a que tem produzido pouco e faz aparições esporádicas para apresentar seus sucessos do passado? Como teve de tudo um pouco no festival, é possível dar palpites sobre essas questões.

Para a primeira pergunta, não tenho uma resposta. As duas fórmulas funcionaram, e bem, no Fauna Primavera. O representante da escola interativa foi Edward Sharpe and the Magnetic Zeros, que leva a fórmula ao extremo, a ponto de definir seu repertório na hora, em conversa com o público, e aceitar, no caso do vocalista que dá nome à banda, toda bebida alcoólica que a turma do gargarejo lhe oferece.

Quem fez as honras dos adeptos da bolha foi o Air, o headliner do dia. Por sinal, essa informação é fundamental. Afinal, a fórmula da bolha não é para qualquer um e só pode funcionar nos shows de bandas que carregam certa aura de divindade. Entre os nomes dessa escola dos quais já vi apresentações memoráveis, estão, além do próprio Air, Radiohead, Sonic Youth e The Strokes, ainda que estes últimos não sejam autênticos representantes do estilo, já que seus shows se alternam entre o hermetismo e a interação, dependendo do quanto beberam naquela noite.

A segunda pergunta que deixei no ar pode ter uma resposta mais conclusiva, ao menos com base no que se viu no Fauna Primavera. As bandas que se encaixam nas descrições de três parágrafos atrás e que tocaram no festival foram, pela ordem das definições, o Primal Scream e o Air.

Para mim, que já havia visto o Primal Scream duas vezes, foi um pouco triste revê-los agora. Pode ser implicância, mas não conseguia deixar de comparar a banda que estava vendo com a que havia visto nos shows anteriores. No primeiro, em um TIM Festival, o que me marcou foi a parede sonora criada pelas três guitarras que foram usadas então, contra uma única e solitária desta vez em Santiago. O consolo aos amantes da guitarra foi a canja do Kurt Ville, este mago das seis cordas, em “Damaged”. A comparação com a segunda vez que vi o Primal Scream, na turnê promovida para tocar na íntegra o “Screamadelica”, foi até mais frustrante. Essa sensação não foi pela falta de músicas do álbum revolucionário da banda, e sim pela maneira como foram executadas, com os metais e vocais de apoio gravados. A parte do repertório do show que foi tirada do “Chaosmosis”, o álbum mais recente, também ajudou pouco.

No caso do Air, ao contrário, tudo conspirava a favor. Era noite, o álcool no sangue do público vinha em ascensão, seria minha primeira vez… Ao menos no Fauna Primavera, a banda que tem produzido pouco e vive do passado levou fácil da que se desfigurou e tenta continuar produzindo, o que não vale sempre, claro. O ideal, na verdade, seria conciliar a fidelidade às origens na formação da banda e na execução das músicas, como o Air, com a produção de material novo de qualidade, o que não chega a ser o caso do Primal Scream de hoje.

Deixando os testes para trás, Courtney Barnett, Kurt Ville and the Violators, Camila Moreno e The Brian Jonestowm Massacre também merecem registros. Acompanhada de baixo e bateria, a australiana conseguiu fazer mais barulho com sua guitarra do que todos os três guitarristas do Brian Jonestown Massacre; Kurt Ville e seus Violators, como ele próprio definiu, tiveram bons momentos com um country rock despretensioso e cool; e a local Camila Moreno foi uma grata surpresa para um brasileiro perdido entre o público chileno. A decepção foi o Brian Jonestown Massacre, que ficou aquém do que mostra em estúdio.

As explicações para isso podem ser os problemas de som, que foram alvo de queixas do Brian Jonestown em pessoa ao microfone, e a dificuldade que tive em lidar com o fato de que a banda tem um integrante em primeiro plano agindo como um pateta e tocando um pandeiro de forma desleixada. Se você não acredita, confira o vídeo abaixo.

 

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.