Colunistas Juliano Barreto

10 motivos para respeitar as mina… do Twisted Sister

twisted_editada2Em 1972, David Bowie dá um peteleco na orelha do mundo ao colocar na praça o álbum “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”. A estética hippie quase que automaticamente fica démodé e adolescentes do mundo todo passam a ter uma nova referência sobre o tal de rock’n’roll. Tanto para o público quanto para os artistas, a importância de bons riffs e refrões fica empatada com necessidade de forçar a mão na maquiagem, na altura dos saltos plataforma e na ousadia dos modelitos.

Bem longe de Londres, o epicentro da sofisticação, mais precisamente na periférica Ho-Ho-Kus, Nova Jersey, um cara de 20 anos chamado John Segall sente o impacto dessa mudança e inverte completamente a direção da sua banda amadora. Batizado de Silver Star, o grupo acostumado a tocar covers de Lou Reed em botecos, muda seu nome para Twisted Sister.

Em 1984, seria a vez de Segall, já usando a alcunha de Jay Jay French, dar seu peteleco na orelha do mundo colocando na praça o álbum “Stay Hungry”. Se o LP não é lembrado tão facilmente apenas pelo seu nome, ele mostra seu peso por abrigar logo dois dos maiores clássicos do rock dos anos 1980: “We’re Not Gonna Take It” e “I Wanna Rock”.

Pois é justamente o intervalo de doze anos entre a criação da banda e o sucesso mundial que serve como tema para o excelente documentário “We Are Twisted Fucking Sister!” (veja o trailer). Excelente porque mostra uma história bem diferente da manjada trajetória da banda que junta amigos talentosos e, num lance de sorte, convence um empresário visionário a transformá-los na “próxima grande coisa”.

O Twisted Sister ralou e foi avacalhado por doze longos anos antes de chegar triunfante ao mainstream. “We Are Twisted Fucking Sister!”, além da perseverança e do pragmatismo empreendedor de Jay Jay French, mostra toda a raça e a coragem de Danny Snider, molecão que chegou à banda em um momento de baixa e a transformou completamente.

Mais macho que muito homem, Dany foi rebatizado de Dee Dee e incorporou uma figura única nos palcos —não só pela questão de ser vestir como algo parecido com um travesti de outro planeta, como fazia Bowie, ou simplesmente com um travesti, como os New York Dools.

Dee Snider berrava e liderava uma banda com um som sujo e pesado, fazia questão de que toda a audiência estivesse pulando e não parava um segundo. Morria no palco. Tudo isso, é claro, enquanto usava vestidinhos rasgados, batom vermelhão e chacoalhava cachos descoloridos comparáveis em volume e diâmetro a umas três ou quatro ovelhas. O efeito de Dee foi tão avassalador que aquela banda que fazia mais do mesmo, virou uma certeza de shows lotados. Pensavam que Twister Sister era o nome de palco de Dee Snider, não da banda. Mas nem isso garantiu o estrelato para os figuraças.

Mesmo com uma presença de palco impressionante, a pegada forte do som e a atitude desafiadora da “campanha” Death to Disco, a banda não fez a cabeça do pessoal cool de Manhattan. Enquanto o CBGB’s ditava quem seriam os próximos reis do rock… O Twisted Sister estava lá ralando em botecos de Nova Jersey e região apenas para pagar as contas do mês e não passarem fome. Como eles saíram dessa depois de 12 anos? Não vou contar tudo aqui, quero que você assista ao documentário. Está lá no Netflix, facinho de ver. Se não convenci você até agora, faço um ‘top 11’ de coisas legais que eles revelam:

1. Dee Snider foi contratado apenas porque a banda não tinha ninguém que conseguisse cantar decentemente os covers do Led Zeppelin.

2. A namorada de Dee Snider, com quem ele permanece até hoje, era a responsável pelas roupas femininas(?) que ele usava.

3. Os fãs eram tão fanáticos que demoliram uma casa de shows, durante o show, a pedido da banda

4. Apesar de toda a porra-louquice do visual e do som, Dee Snider e Jay Jay French não bebiam nem usavam qualquer tipo de drogas.

5. Durante uma turnê britânica, o Twisted Sister abriu show para o Motörhead

6. Nos Estados Unidos, quem abriu os shows do Twisted Sister foi o Metallica

7. “Stay Hungry” vendeu três milhões de cópias

8. A banda se separou apenas quatro anos após o “sucesso”.

9. Dee Snider precisou dar explicações no Senado americano (vestindo regata) por conta da “rebeldia juvenil” que suas músicas promoviam: https://www.youtube.com/watch?v=veoYcsH7Wrs

10. A banda sempre rejeitou o rótulo de “glam rock”: “I don’t think Twisted Sister is glam because that implies glamour. We should be called ‘hid’ because we’re hideous!”, disse Dee Snider.

11. Ao serem xingados e virarem alvos de objetos, Dee Snider chamou os insatisfeitos para a porrada em pleno palco. Os caras arregaram.

VEJA O TRAILER DE ‘WE ARE THE TWISTED FUCKING SISTER’

OUÇA O ÁLBUM ‘STAY HUNGRY’ NO SPOTIFY

Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.