Tom Verlaine e seu Television, em NY, em 1977
Colunistas Leandro Leal

1977 (Mas também 1967, 1987, 1997 e 2007)

Mais que os meus cabelos brancos, meu cinismo me lembra: este ano, completo 40. Mas o choro desafinado e esgoelado saído de um entre tantos recém-nascidos numa maternidade do ABC paulista está longe de ser o fato musical mais importante de 1977. Naquele ano, marcado pela explosão do punk rock – não à toa, a vertente mais tradicional do gênero é conhecida como “77” –, muitas bandas deste e de outros estilos surgiram, diversos shows históricos aconteceram, um punhado de discos seminais foi lançado. Que ano para o rock, amigos.

 

Menos por narcisismo do que por reverência, me propus, então, a escrever um pouco sobre alguns desses álbuns quarentões. E, para provar que não tenho preconceito com os mais velhos ou com mais novos, vou falar também de outros álbuns que fazem “aniversários redondos” em 2017: ou seja, 10, 20, 30…50 anos. Vou fazer isto sempre que esses aniversários se aproximarem.

 

Só para não perder o embalo, começo com “Marquee Moon”. O primeiro e mais importante álbum da banda de Tom Verlaine acabou de chegar aos 40, agora, dia 7 de fevereiro. Dez anos antes dele, foi lançado “Velvet Underground And Nico”, o célebre disco que trazia na capa a icônica banana de Andy Warhol, aquele que “poucos compraram, mas todos esses poucos formaram bandas”, como disse Brian Eno – ele mesmo e seu Roxy Music, sem dúvida, influenciados pelo álbum dos apadrinhados de Andy. (Volto a falar desse disco em uma coluna próxima, prometo.) De fato, várias bandas que surgiram ou explodiram em 1977 tinham entre seus membros devotos de Lou Reed e John Cale. Tom Verlaine devia ter um altar dos gênios em casa. O disco de estreia de sua banda talvez não tenha tido essa pretensão, mas se tornou, como o álbum inaugural do Velvet, um marco para o rock alternativo – com o perdão do trocadilho.

 

Sem negar a influência, também era estranho, incomum, ousado. Faixas longas, guitarras ecoantes, um vocal quase ruim, desafinado em muitos momentos. As letras também experimentavam, flertavam com a poesia, exatamente como as de Lou Reed. (O que dizer do verso “eu caí nos braços da Vênus De Milo”, de “Venus”?) Como o Talking Heads (outro grupo que lançou seu disco de estreia naquele 77 e do qual falo outra hora), o Television, embora compartilhasse da energia do punk contemporâneo, ia além da crueza do punk rock, emergido dos becos escuros de Nova York para o não muito mais iluminado palco do CBGB’s. “Marquee Moon” é um disco impressionante, imprescindível.

 

Se você não conhece, é sempre tempo de praticar um pouco da arqueologia musical a que me referia em outro texto. Aliás –  e não é porque é o ano que nasci, não –, 1977 é um excelente ano para se ir a fundo.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.