Colunistas Leandro Leal

As piscadelas da Justine

Justine, ah, Justine

O Top Of The Pops é uma espécie de versão inglesa do Globo de Ouro, aquele que eu e você, amigo quarentão, assistíamos quando crianças. Como no nosso, no Globo de Ouro deles, jovens dançavam “loucamente” ao som (em playback dublado) dos sucessos do momento, em um cenário emulando uma discoteca. Em tempos sem MTV, muito menos internet, a atração foi importantíssima para a formação musical de uma infinidade de britânicos, a partir dos anos 1960.

Minha geração foi a última a assistir ao Globo de Ouro. Lançado em 1972, o programa teve suas atividades encerradas em 1990. Já o TOTP teria uma sobrevida bem mais longa, até 2006. Graças a esses 16 anos a mais, a atração pôde ser palco de muita coisa bacana surgida no período. Para efeito do texto, vamos ficar em só uma delas: o Britpop. Bandas do gênero/movimento que sacudiu (“sacudiu”, Leandro?) a música nos anos 1990 protagonizaram momentos memoráveis no programa. Entre tantos, destaco os irmãos Gallagher trocando de lugar enquanto tocavam “Roll With It”, fazendo pouco da mímica que acompanhava o playback.

Mas, mais do que dessa aparição do Oasis, gosto mesmo de uma de outra banda da mesma cena, mas de expressão bem menor. Capitaneado (“capitaneado”, Leandro?) por Justine Frischmann, o Elastica era mais conhecido pelo single “Connection” e pelo envolvimento da vocalista com colegas famosos. Nessa apresentação de 1995, a música que tocam (de verdade, veja só!) nem é seu maior hit – é a menos badalada “Waking Up”. À época, o triângulo vivido com Brett Anderson (Suede) e Damon Albarn já havia se desfeito, e o último, que começara como amante, assumira o posto de titular. Namorado gente boa, o líder do Blur fez uma participação especial como “tecladista convidado”, não muito bem disfarçado por trás das lentes grossas dos óculos nerd.

Se fosse só por esse “easter egg”, já seria legal. Mas o que torna esse vídeo do Elastica épico, fabuloso, incrível, histórico (e todos os adjetivos grandiosos em que você conseguir pensar) é outra coisa, muito mais singela: as piscadelas da Justine. Sempre que a câmera fecha no rosto da vocalista, ela sorri sacana, franze o nariz e aperta os olhos, leve e graciosamente.

Claro que não vi essa maravilha na época. Nem se sonhava com Youtube em 1995. Porém, desde que descobri o vídeo, há alguns anos, quando procurava por coisas da banda na internet, já vi e revi incontáveis vezes. Sempre que preciso me animar, aumento seu número de visualizações.

Esses dias, li rumores sobre uma provável reunião da banda, separada desde 2001. Pode ser que não dê em nada, ou que, se rolar, seja decepcionante. Em todo caso, já vai ter servido para me lembrar de rever as piscadelas da Justine. Não é pouca coisa.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.