Colunistas Leandro Leal

22 de fevereiro de 1993

Não lembro o que estava fazendo no dia 22 de fevereiro de 1993. Com 15 anos, como todo moleque naquele tempo, eu andava com uma camisa de flanela xadrez amarrada na cintura. O áudio, claro, combinava com o visual. (As roupas, aliás, sempre remetiam ao que se ouvia ou que se tocava. Quem poderia imaginar que, um dia, cantores sertanejos se vestiriam como indie kids? A gente nem sabia o que eram indie kids.) Naquele começo dos anos 1990, a música feita em Seattle era o som ambiente da maioria dos quartos adolescentes, em cujas paredes Kurt Cobain e Eddie Vedder, em pôsteres, estendiam seus reinados para além dos aparelhos de som. Mas, naquele 22 de fevereiro, tudo iria mudar.

     Dois sujeitos vindos da Inglaterra, mas não de Liverpool ou Manchester, deram início à revolução, trazendo música ainda menos óbvia que suas origens. Nascido em Wellinborough, o esquisito Thom Yorke liderava o Radiohead, enquanto o galã Brett Anderson, natural de Sussex, estava à frente do Suede. Eu morava em Caruaru (PE), onde o sinal da MTV era restrito a quem tivesse antena parabólica, e só conheceria as bandas nas férias de julho, quando, na casa da minha avó em São Caetano (SP), finalmente assistiria a seus clipes. Sem que eu soubesse, naquele 22 de fevereiro, as lojas do Reino Unido recebiam Pablo Honey, o álbum de estreia do Radiohead. No mesmo dia, as rádios anunciavam “Animal Nitrate”, do Suede. Apesar de ser o terceiro single da banda, foi o que de fato apresentou a banda ao mundo.

     Do disco de uns e do single de outros, você já deve ter lido o suficiente. Se não leu, desculpe, não vai ser aqui, não desta vez. Quero falar mais do impacto que as duas bandas tiveram naquele projeto de grunge deslocado no agreste pernambucano, um lugar tão quente que você só usaria camisa xadrez de flanela se tivesse problemas mentais ou se fosse, er, um projeto de grunge. (Há quem diga que era a mesma coisa.)

    Dos poucos alheios à onda grunge e aos modismos sonoros roqueiros dos anos 1990, meu gosto por Morrissey havia me apresentado à sua figura delicada e ao conceito de androginia. Além dele, outra fotografia havia sido acrescentada àquele verbete da minha enciclopédia pessoal: a de Sebastian Bach, a Brigitte Bardot do hard rock. Nenhum dos dois, porém, deixava dúvida sobre seu gênero. O vocalista dos Smiths era um rapaz frágil e sensível, mas era um rapaz. O do Skid Row, mesmo com a boca carnuda e os cabelos invejados pelas meninas, aparecia sem camisa e sem seios, rodeado de mulheres o tempo todo, bancando o comedor. Brett Anderson, não. Tudo nele era ambíguo. Se a voz era difícil de categorizar às primeiras audições, o clipe não ajudava muito. No vídeo, o que se via entre pessoas seminuas nada atraentes, trajadas com máscara e pele de oncinha, era uma figura esguia e rebolante, de cabelo Channel e brinco de argola, vestida com uma jaqueta de couro que mostrava a barriga. O gestual provocativo servia apenas para acentuar a confusão, que ele (ou seria ela?) não fazia a menor  questão de desfazer. Antes de saber seu nome e seu gênero, confesso, tive uma quedinha pelo vocalista do Suede. (Muitos outros meninos tiveram sem admitir, tenho certeza.) Quando, enfim, soube ser ELE, fiquei decepcionado, me senti trapaceado. Mas em “Animal Nitrate” havia algo acima de qualquer questionamento: as guitarras, estranhas como a letra e o título da música, eram incríveis, o refrão, inesquecível. Minha paixão pelo cantor terminou antes de começar, mas o amor pela banda segue até hoje.

     Já ver o Radiohead na televisão pela primeira vez também me causou dúvidas, mas de outra natureza. Ué, não precisa ter cara de roqueiro para tocar rock? Não. Como o próprio Thom Yorke afirmaria numa das faixas do Pablo Honey, “qualquer um pode tocar guitarra”. O sujeito que cantava “Creep” não tinha a menor pinta de frontman de banda de rock, estava mais para alguém que, alguns anos antes, levava sucessivos cuecões na escola. Yorke era uma cabra feio, um olho mais aberto que o outro, cabelo descolorido e sem corte, em tudo oposto à bela figura do compatriota Anderson. Acompanhado de guitarras pesadas, Thom chorava e se admitia um esquisitão. Para mim, que também me reconhecia assim, fez todo sentido. Virei fã no ato. De volta a Caruaru, tive acesso a um CD promocional com “Creep”, emprestado por alguém de uma rádio local. Se o tal radialista tivera juízo suficiente para não tocar a música na programação à época dominada pelo forró, o mesmo não pode se dizer de mim: a cargo das trilha sonora do colégio durante o recreio, fiz todo mundo ouvir Radiohead. Não espere nenhuma história de superação. Meu coleguinhas não gostaram nada, e minha carreira à frente da rádio da escola se limitou àquele dia.

     Continuei a ouvir Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains e todos seus conterrâneos. Também ouvia Skid Row, Red Hot Chilli Peppers e demais bandas de maior sucesso entre a molecada — além, é claro, dos anacrônicos Smiths. Mas, a partir dali, meu paladar musical se ampliou. Passou a incluir ídolos esquisitos, de sonoridade tão inesperada quanto sua aparência. Thom e Brett abriram as portas para uma legião de conterrâneos — Blur, Pulp, Oasis, Charlatans, Verve, Lush e muitos outros —, que até hoje estão entre os que mais ouço. E tudo começou naquele 22 de fevereiro, há 25 anos.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.