Colunistas João Botelho

A cena das bandas peculiares

A 20ª edição do festival Bananada, realizada neste mês em Goiânia, foi mais uma expressão da cena de artistas e bandas peculiares que compõe o rock alternativo da atualidade no Brasil.

A depender da ou do artista, a definição se refere a produção musical, personalidade e histórias de vida ou tudo ao mesmo tempo. Sempre que foi o caso ao longo do Bananada, a bagagem pessoal dos representantes da cena se refletiu na música e nas interpretações, carregadas de emoção.

Cada noite do festival deu exemplos nesse sentido. De Gaivota Naves, vocalista da Rios Voadores que vem de tragédias pessoais recentes, a Giovani Cidreira, um baiano da periferia de Salvador, passando por Assucena Assucena e Raquel Virgínia, as cantoras trans de As Bahias e a Cozinha Mineira, foi um desfile de histórias e interpretações emocionadas, inspiradas pelas trajetórias e personalidades de cada artista e embaladas, claro, por sons e músicos de qualidade.

Na sua expressão mais musical, a cena de artistas e bandas peculiares foi completada no Bananada por três grupos instrumentais, dois originários de capitais nordestinas (Natal e Recife) e um formado apenas por mulheres, que são, pela ordem, Camarones Orquestra Guitarrística, Kalouv e Ema Stoned.

A menção a todas essas bandas não é uma reverência pura e simples à diversidade, que, por si só, já mereceria ser reverenciada, e sim ao que a diversidade de estilos musicais, origens pessoais e histórias de vida traz consigo de qualidade artística. Os exemplos mencionados compartilham a característica de refletir a diversidade com qualidade. Fosse uma reverência unicamente à diversidade, haveria a necessidade de citar mais artistas que se apresentaram na última edição do Bananada, o que, como explicado, não é o caso. Independentemente desse tema, Boogarins, Gorduratrans, Larissa Luz e Nação Zumbi fizeram outros shows de destaque na programação extensa do festival.

Para quem tiver curiosidade em conhecer, ou quiser ouvir novamente, seguem abaixo sugestões de músicas de algumas das bandas e artistas mencionadas. Antes disso, um comentário sobre a logística do Bananada. O passo definitivo para se tornar um festival grande da cena alternativa no Brasil, como parece ser a pretensão do Bananada, ainda está pendente e requer a atenção a algumas questões, características de eventos menores e feitos mais com paixão.

Como início de conversa, não é segredo para ninguém que o número de banheiros esteve muito aquém do necessário para o tamanho do público que o Bananada passou a ter. Uma questão menos simples com que lidar é a acomodação de proporções de festival grande com uma lógica de festival pequeno para organizar a programação.

Fabrício Nobre, um dos idealizadores e organizadores do Bananada, tem toda razão em dizer, como fez na última noite, que o festival nunca terá camarote nem área vip. Não se trata disso. A questão é que a fórmula de apresentações espremidas a cada meia hora e tolerância com atrasos, fazendo com que até a noite do domingo adentre em muito pela madrugada do dia seguinte, não parece mais ter sentido.

Se a proposta é continuar dando espaço ao maior número possível de atrações ao longo do festival, uma solução possível é aumentar o número de noites, permitindo que cada banda tenha um pouco mais de tempo, evitando, ou minimizando, atrasos, e oferecendo horários de término das noites, sobretudo a de domingo, mais amigáveis ao público.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.