Colunistas Juliano Barreto

Por que toca tanto Aerosmith na FM?

O Super Cine não passa mais filmes do Charles Bronson.
A Folha de S.Paulo não publica mais manchetes com os resultados do turfe.
Não existe mais quebra-vento, afogador ou acendedor de cigarro nos carros.
O bigode do José Sarney já não dá mais as cartas no Palácio do Planalto.
Então por que as rádios brasileiras continuam a tocar tanto Aerosmith e Pearl Jam?

Não é preciso esperar algum programa de flashback na sua “rádio rock” preferida ou estar nas semanas próximas de mais uma das visitas quase semestrais dessas bandas ao Brasil. Em qualquer dia e qualquer hora do ano da graça de 2017, o ouvinte tem grandes chances de aleatoriamente sintonizar “Walk This Way” (1985), “Janie’s Got a Gun” (1989), “Love in an Elevator” (1989), “Crazy” (1993), “I Don’t Wanna Miss a Thing” (1998) ou Jaded (2000). Se ao ligar o rádio não estiver tocando Aerosmith, então dobram as chances de os autofalantes despejarem “Jeremy” (1991), “Alive” (1991), “Even flow” (1991), “Solider of Love” (2000).

Em ambos os casos, as músicas mais novas já beiram os 17 anos. Sem discutir a qualidade das bandas ou das músicas, é curioso tentar entender como a programação das rádios brasileiras caiu nesse limbo. De onde surge a vontade de ouvir algo tão comerciais e datado ao mesmo tempo?

Separando as perguntas, é fácil responder. Música comercial dá audiência, atrai anúncios, mantém o negócio funcionando. Música datada, no melhor sentido da palavra, serve como desculpa para sequencias temáticas de flashbacks.

Somando as duas coisas, a conta não bate.

Será que no Brasil Aerosmith e Peal Jam ainda são mais populares que seus equivalentes do século 21? Não existiu nada de 2000 para cá capaz de ao menos empatar com eles? Para preencher a setlist não temos nenhuma banda mais moderna de rock comercial inofensivo e não muito barulhento? Para que servem os Coldplay, Foo Fighters, Red Hot Chilli Peppers da vida?

Olhando para o lado do dial, nas rádios declaradamente dedicadas aos gêneros mais populares nós não ouvimos mais Gilliard, Lionel Richie, José Augusto, Jessé… existe (para o bem ou para o mal) gente nova ocupando esse espaço com releituras da “música romântica”. O antigo público de AM hoje ouve artistas que produzem músicas novas, álbuns novos, que estão em plena atividade. De novo, não é preciso discutir a qualidade do som. Sertanejo Universitário, Pagode, Arrocha, ou qualquer outra coisa que apareça por aí.

O fato é que essa oxigenação natural não acontece nas FMs que (dizem ser) dedicadas ao “rock”.
Sei que existem programas dedicados à bandas nacionais, também tocam bandas novas de vez em quando, mas o grosso da programação é na base de Pearl Jam, Aerosmith, Bon Jovi, U2, e outros sobreviventes dos anos 1980.

Se for só preguiça das rádios. Pior para as rádios. Quem quer ouvir música diferente, atual, ou música velha com mais autenticidade, vai ficar muitíssimo bem ouvindo streaming. Deixa o rádio apenas como opção para ouvir jogo de futebol quando está na estrada ou para ouvir todo dia a mesma notícia de que a Marginal está com trânsito intenso.

Agora se a preguiça for também do público, que estacionou em meia dúzia de bandas antigas que repetem meia dúzia de hits aguados de duas décadas atrás, é bem possível que seus tataranetos vão ouvir “Janie’s Got a Gun” quando ligarem os rádios dos seus carros voadores no futuro.

Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.