Colunistas Leandro Leal

Arqueologia

Para descobrir coisas novas, é preciso estar atento às novas tendências e lançamentos, certo? Se você conhece absolutamente tudo sobre um determinado gênero musical – e, no caso de um site chamado Bem Rock, só pode ser um –, sim. Mas se você, como eu, não domina tudo o que já foi gravado por formações de guitarra, baixo e bateria – e, vá lá, teclados e sopros –, fazer escavações pode valer a pena. Muitas coisas boas produzidas no passado soam como novidade para ouvidos que nunca as escutaram.

Você já está cansado de ler como hoje em dia o acesso à música está infinitamente mais fácil do que no passado, mas não custa lembrar. Na época dos seus pais – ou mesmo na sua adolescência –, dava um trabalho danado encontrar um disco mais antigo ou alternativo. Era necessário um intenso garimpo nas lojas, em busca deste vinil ou daquele CD sobre o qual você tinha lido na Bizz ou em alguma rara revista estrangeira. Quando achava o álbum desejado, você tinha que torcer para não ser importado, o que representaria um custo adicional bastante considerável. E, claro, você tinha que ser seletivo, porque a grana só daria para um título ou outro. Como escolher entre o “Dummy”, do Portishead, e o “Cure for Pain”, do Morphine? Só mesmo com uma dor no coração para a qual, avisava Mark Sandman, ainda não havia cura.

Hoje, a Bizz já não é mais publicada. Em compensação, vários antigos críticos dela e de outras publicações-referência continuam na ativa, em blogs, vlogs e outros sites. Além disso, o conteúdo de veículos gringos, como a NME e a Spin, está aí, a um click. Ou seja: se você estiver meio perdido, bússola é o que não falta. E, com a facilidade para ter acesso a qualquer coisa, é preciso mesmo ter alguma orientação. Tudo o que eu e você – ou talvez o seu pai – suávamos tanto para comprar está aí, facinho, quase de graça. A mensalidade do Spotify custa uns 20 reais.

Enquanto a arqueologia propriamente dita requer maquinário pesado e pessoal especializado, a musical só exige curiosidade. O princípio, por outro lado, é o mesmo: o olhar para o passado nos ajuda a compreender o que nos fez chegar até onde estamos, e com a música também é assim. O Black Rebel Motorcycle Club descende do The Jesus And Mary Chain, que, por sua vez, tem Stooges, Velvet Underground e até The Shangri-las no seu DNA. Apologias do passado à parte, não é raro descobrir que as bandas influenciadoras são mais interessantes.

Ainda surgem artistas dignos de atenção, caso da australiana Courtney Barnett (sobre a qual você já leu aqui) e dos americanos do Foxygen, mas a verdade é que o panorama de novidades roqueiras não é o mais animador. Ou isso, ou estou ficando velho – estou ficando velho independentemente disso. Dos álbuns “novos” que mais ouvi ano passado, apenas um foi lançado há relativamente pouco tempo: “Pale Green Ghosts”, do John Grant, é de 2013. Já “Once Upon A Time”, dos velhos conhecidos do Simple Minds, de 1985, é daqueles discos aos quais nunca tinha ouvido com cuidado e se revelou merecedor de cada repeat. O mesmo vale para “Rumours”, do Fleetwood Mac, que chegou às lojas no mesmo ano em que cheguei ao mundo – a saber, 1977. Isso sem contar toda a discografia do Lou Reed, à qual retornei depois de ler a biografia “Transformer”. Pode apostar: nada lançado nos últimos 15 anos chega perto de “New York” (1989).

Amigos descobrindo o “Marquee Moon”, do Television

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.