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Boogarins: Em Goiânia, nos EUA ou na Europa, eles querem ver o sol

Reprodução/Facebook“Que não me deixam ver o sol. Eles não deixam eu ver o sol. Que não me deixam ver o sol. Pra me prender nesse labirinto de tédio”.

O trecho da letra de “Avalanche”, do álbum “Manual”, de 2015, reflete a trajetória do Boogarins. Com “Lá Vem a Morte”, seu terceiro trabalho de estúdio, lançado no mês passado, eles continuam tentando ver o sol e vão caminhando para isso.

A história dos amigos Dinho Almeida e Benke Ferraz, que, de Goiânia, chamaram a atenção de uma gravadora independente de Nova York e tiveram seu primeiro álbum lançado em 2013, já é bem conhecida.

Uma infinidade de shows depois, com passagens por festivais como Primavera Sound, Lollapalooza Brasil, Rock in Rio Lisboa, Levitation e South by Southwest, três álbuns de estúdio e um ao vivo no currículo, e dois outros integrantes, o baixista Raphael Vaz e o baterista Ynaiã Benthroldo, eles voltaram aos Estados Unidos, onde fizeram uma segunda turnê só no primeiro semestre de 2017.

Essa assiduidade nos Estados Unidos e a gravação de “Lá Vem a Morte” em Austin, cidade do Texas que abriga o South by Southwest e que a banda considera como sua base fora de Goiânia, levam à pergunta se há planos de se fixar nestas terras (a conversa foi em Allston, pouco antes de um show na região de Boston, ao fim da turnê).

Para Benke Ferraz, o resultado do trabalho da banda é que definirá onde eles estarão. “Conforme as coisas forem crescendo aqui, ou no Brasil, ou na Europa… Acho que a gente já está trabalhando há três anos nesse projeto, indo para os Estados Unidos, indo para a Europa, fazendo no Brasil os shows também. Então, o que a gente espera para tomar essa decisão de onde a gente vai se basear é muito o resultado desse trabalho que a gente vem fazendo nos últimos três anos. Por enquanto, a gente não está baseado em lugar nenhum, não mora em nenhum desses lugares.”

Isso não significa que eles não tenham casa, que está em Goiânia, mas, só no primeiro semestre de 2017, cerca da metade do tempo foi passado nos Estados Unidos. “É como se a gente morasse aqui, mas, na verdade, não mora em lugar nenhum porque, quando a gente está aqui, também está em movimento”, explica Benke. “A nossa vida é condicionada para estar sempre girando sem estar preso demais ao aluguel de uma casa, à mensalidade da prestação de uma casa”, completa Dinho.

Se fosse para morar nos Estados Unidos, a escolha do lugar não teria como base a preferência de cada um, e sim fatores como custo de vida baixo e a possibilidade de ter um emprego flexível que não lhes impedisse de fazer turnês. Entre as opções, levando em conta esses fatores e a proximidade de outros centros, estariam Austin, Philadelphia, na Pensilvânia, e Portland, no Oregon. De qualquer maneira, dizem, essa possibilidade é algo distante. “Ainda não é o momento. Estamos trabalhando para ser uma banda que tenha uma estabilidade aqui, como a gente tem no Brasil”, resume Benke, lembrando que, em terras brasileiras, eles ainda têm a vantagem do apoio familiar.

Quando o assunto é o álbum recém-lançado, Benke o encara como o reflexo de um amadurecimento da banda, musical e pessoalmente, o que não significa que isso tenha sido planejado. “É o tipo da coisa que a gente só pensa quando perguntam, porque é muito natural todo o processo, de como vir a ser aquilo”, conta. “O caminho lógico que achei para explicar porque é um álbum mais maduro é que, na verdade, é o primeiro que a gente compôs totalmente depois da saga da nossa banda”.

Benke se refere a que “As Plantas que Curam”, o trabalho de estreia, foi criado quando o Boogarins ainda não existia propriamente como banda, a que a maioria das músicas de “Manual”, o álbum seguinte, veio de ideias surgidas antes da primeira turnê que fariam como banda pelo mundo e a que o atual baterista Ynaiã Benthroldo só se juntaria a eles depois de tudo isso.

Tanto é que Benke considera “Lá Vem a Morte” como “o primeiro disco de fato do Boogarins enquanto Boogarins, com toda a carga que a banda se tornou para a gente”. Assim, “é o primeiro material que traz uma reflexão sobre a influência do Boogarins na nossa vida” e, com a banda tocando ao vivo quase sem parar por três anos, “o primeiro disco que foi feito desse fluxo”.

Definido o marco, a experimentação presente em “Lá Vem a Morte” também é vista por Benke como algo que surgiu naturalmente. “Desde os arranjos e a composição inicial do Dinho, a influência do Ynaiã, o Raphael escutando música eletrônica experimental e tendo ideias para usar no sintetizador, […] enfim, é tudo natural, não foi nada pensado, muito menos a ordem de músicas, que três meses atrás era outra, o conceito do disco, algo [o tipo de processo criativo] que acompanha a gente desde o início da banda”.

Outra característica mantida, segundo Benke, foi a despreocupação em produzir alguma música que lhes levasse a atingir um grande público. “Nenhum dos discos quer ter o hit do ano, porque tem a sonoridade do momento, é a nossa coisa do momento, na verdade, o sentido que a gente deu para o momento”.

Pouco depois, o Boogarins subiria ao palco em Allston. Ainda tocaria na Philadelphia e no Brooklyn e passaria por Lisboa, antes de voltar ao Brasil, onde mais shows os esperam, inclusive no próximo Rock in Rio. Afinal, seja de que ponto do mundo for, eles querem ver o sol.

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Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.