Colunistas Juliano Barreto

A redenção de Brian Wilson

Brian Wilson - Pet Sounds

Faz tempo que a música vive de aparências. Desde o tempo das vitrolas, qualquer banda ou artista relevante ganha uma “marca registrada”, algo mais visual do que sonoro, mais superficial do que factual e mais resumido que um texto de embalagem de iogurte. Em 2017, o “parecer ser” já é muito mais importante do que o “ser”, mas quando falamos em Brian Wilson, em Beach Boys e em “Pet Sounds”, vemos que rótulos colados a mais de 50 anos continuam bem fixados.

“Os Beach Boys foram uma tentativa de se fazer um clone americano dos Beatles.”

“Brian Wilson se entupiu tanto de drogas que virou um velho maluco e incapacitado.”

“Pet Sounds é o melhor disco do mundo… se o mundo não tivesse a Inglaterra, e se a Inglaterra não tivesse Beatles, Rolling Stones, The Who, The Animals…”

São três frases que, impossível negar, trazem três verdades. É fato que a obra dos Beach Boys deu uma bela degringolada depois de Pet Sounds. A saúde do líder da banda, agora com 74 anos, também não resistiu bem à uma dieta que incluía LSD no café da manhã.

Isso foi culpa dos Beatles? Sim, de certo modo. O próprio Brian Wilson disse que queria fazer “o maior disco de rock de todos os tempos” quando se trancou no estúdio para criar “Pet Sounds”. Esse rótulo ele não conseguiu. Mas com dois pequenos ajustes nessa etiqueta, dá para afirmar sem nenhuma dúvida: “Pet Sounds é um dos maiores discos de rock de todos os tempos”.

Quem duvidar pode conferir ao vivo ou pelo YouTube a recente turnê em que Brian Wilson decidiu tocar todas as músicas do álbum, na ordem, com o máximo possível de fidelidade ao original.

A primeira impressão sobre o show “Pet Sounds: The Final Performances” é estar sendo meio enganado, pagando para o vovozinho “fazer cover de si mesmo” em seu projeto “caça-níquel”, um rótulo de “Baile da Saudades com guitarras” cairia bem.

O sentimento após o show é totalmente diferente.

A performance de Brian, que mal consegue andar sem demonstrar suas sequelas, é tão imperfeita quanto emocionante. Me fez pensar no constrangedor Paul McCartney, dando pulinhos nos estádios superlotados de gente que não conhece mais do que duas ou três das suas músicas.  Me fez pensar que um cara de 74 anos tem sim que estar velho, gordo e detonado. Não cheio de plásticas, como o Paul, ou fingindo ser durão e indestrutível só para manter as aparências, como o Keith Richards.

Voltando ao “Pet Sounds” ao vivo, vale destacar que a “banda de apoio” que cerca o antigo Beach Boy é formada por dez músicos de talento e currículo excepcionais –a começar por Al Jardine, guitarrista, vocalista e fundador do Beach Boys. Não é um bando de músicos de aluguel. Tem gente que tocou em Woodstock, cara que abriu show do Beach Boys nos anos 60, e por aí vai.

Até o repertório do show surpreende, pois vai além do “Pet Sounds”. Ouvir ao vivo “Barbara Ann” e “Surfin U.S.A” é meio que voltar no tempo sem Dellorean. E quando você pensa que acabou, no bis os caras mandam “Good Vibrations”, “Surfin Safari”. Estaria de bom tamanho só por isso, mas entre os dois desfiles de hits históricos, há um Pet Sounds ao vivo do começo ao fim.

E “Pet Sounds” é tão foda que nem precisa do seu vocalista/compositor em forma para soar fantástico. Aliás, precisa, sim. Mesmo sem cantar ou sequer tocar piano em algumas das músicas do show, dá para notar que “Pet Sounds” não é aparência. O que você vê de “Pet Sounds” é muito menos importante do que aquilo que você ouve.

As músicas que soam tão inocentes no fone de ouvido, crescem de forma absurda no palco. Metais, percussão, piado, teclado, vocais em falsete. Brian foi um maestro tão genial em 1966, que hoje não precisa nem reger a sua orquestra. Seus sons de estimação passeiam pelo ar em uma harmonia elaborada e perfeita. Música após música. Clássico após clássico. God only knows.

Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.