Colunistas Xandão

Bruce, vamos conversar sobre Paul Di’Anno?

Reprodução/FacebookEi Bruce, tudo bem?

Estou um pouco atrasado para escrever essa carta. Aliás, seria uma carta se tivesse sido escrita na época em que eu resolvi dar uma chance para o Iron Maiden, lá pelo final da década de 80 já. E talvez você só a recebesse no fim deste mês de julho de 2017, enquanto estão em mais uma turnê pelos Estados Unidos.

Sabe, eu já tinha ideia da existência do Iron Maiden, digamos assim, desde bem antes de resolver conhecê-los. Mas, era uma época em que, primeiro, ouvia umas baboseiras pop, coisas de rádio FM daqueles tempos mesmo. Depois, no início da adolescência, havia mergulhado diretamente no punk rock. Aí, aquela coisa da idade, você fica meio radical. E se gosta disso, é apenas disso. Punk rock era o que havia, o resto não prestava por decreto, mesmo que o ouvido até apreciasse.

Dead Kennedys foi o principal, mas Exploited, Sex Pistols, The Clash, GBH etc eram outras bandas do meu currículo. Aos poucos fui me abrindo para grupos e estilos diferentes. E aí, resumindo, um belo dia fui presenteado com dois LPs do Iron Maiden. Eram do Mau, grande amigo de Curitiba, onde morei por muitos anos. Ele não curtia e me presenteou.

Eram eles o próprio Iron Maiden e Aces High. Que espetáculo. Como ouvi aquelas dois discos. Lembro que a instrumental Transylvania foi a primeira a me conquistar. Mas, música a música, foi escolhendo uma nova favorita de tempos em tempos. Com Aces High já fui direto no próprio single. Não entendia nada do que você cantava, mas curtia demais a energia da música.

Um outro amigo Maurício, o Zamboni, me alertou um dia de que cada disco tinha um vocalista diferente. Eu não tinha ideia de quem era quem. E, você sabe bem, não era algo assim fácil para se pesquisar.

Passam-se os anos, vejo você sair e voltar para o Iron Maiden, muitos lançamentos, sucessos, shows, turnês. Que pique para quem está quase nos 60 anos hein? Fico feliz por você. Mas, ao mesmo tempo, quase não ouço mais nada do primeiro vocalista do Iron, aquele que gravou o disco número 1 da banda. O disco que leva o próprio nome do Iron Maiden.

Recentemente vi que Paul Di’Anno estaria mais uma vez no Brasil. Mas, como aquele adolescente que se fechava a outros estilos musicais, não dei uma chance para o cara me contar da vida dele. Preguiça mesmo. Até que, há alguns dias, ouvi Iron Maiden, o álbum, do início ao fim.

Você já fez isso? Imagino que sim. Mas meu palpite é que não faça isso há muito tempo. Olha, se eu puder te dar um conselho é esse: ouça o disco novamente. Assim, música a música, da primeira do lado A até a última do lado B. É bom demais. E mesmo que Paul Di’Anno já tenha prestado homenagens a você, o cara também merece algum reconhecimento.

Não quero julgar sua vida, mas é difícil não pensar que você teve um caminho mais tranquilo do que seu antecessor. Provavelmente porque suas escolhas foram bem melhores do que as de Paulo Di’Anno. Você sabe bem que ele foi demitido após o segundo álbum do Iron Maiden, Killers. O cara foi daqueles que achou que o rock’n’roll era apenas para curtir os excessos.

Foi justamente por isso que comecei a procurar informações sobre ele. O cara balançou daqui para lá, mas nada que o tornasse grande como você e o Iron Maiden. Pouco depois de ser demitido por Steve Harris e companhia, Paul até lançou um álbum que levou seu sobrenome apenas: Di’Anno. Bruce, vou te dizer, que coisa mais esquisita esse disco. Sabe a má fama dos anos 80? Esse disco meio que dá razão a esses críticos. É bem ruim.

Depois ele lançou uma banda chamada Battlezone. Não consegui ouvir muito ainda, mas parece ok. Nada demais. E, na vida pessoal, continuou enfrentando seus demônios, teve muitos problemas com drogas e até falência. Resolveu contar tudo em um livro chamado The Beast, lançado em 2010.

Bruce, você e o Iron já vieram muitas vezes ao Brasil. Mas acho que Di’Anno teve uma ligação ainda maior. Não apenas veio muitas vezes, como montou uma banda com Canisso, ex-Raimundos, a Rockfellas. Teve dois filhos com uma brasileira e virou corintiano fanático. Canisso contou à revista Trip em 2010: ‘Ele não gostava de morar perto do Palmeiras. Ficou tão fanático pelo Corinthians que foi na Gaviões da Fiel tirar carteirinha de sócio e estava até a fim de tatuar o escudo do clube’, disse o baixista.

Não sei se você acompanha alguma coisa da vida do Paul Di’Anno. Se acompanha, provavelmente já saberia de sua paixão pelo Corinthians e pelo Brasil. Descobri algumas entrevistas dele sobre isso. Acho que só eu, com minha preguiça para ‘novos amigos’, não sabia. Mas também fiquei triste ao ver que o cara continua em caminhos tortuosos.

Mais uma demissão na carreira não é fácil, não é? Não estou por dentro da história do Architects of Chaos para opinar, mas em seu post no Facebook Paul mostrou toda sua indignação. Chamou os caras da banda de ‘traidores’. Bem, ele também disse que iria tentar remontar a banda usando o mesmo nome e com seus ‘irmãos’ do Brasil. Ficou sabendo de algo? Eu acho que não rolou.

Até porque há poucos dias veio a história do câncer. Que, no fim, era um abscesso pulmonar. Aparentemente, menos mal. E ainda tem a história da cadeira de rodas, por causa de dores no joelho. Realmente não está fácil para o cara.

Bem, a ideia não é fazer você se sentir culpado. Mas apenas dizer que ouvir o álbum Iron Maiden me deixou pensativo sobre como cada ação reverbera por muitos anos, talvez toda a vida. E também sobre como teriam sido as coisas se tivessem acontecido de outra forma. Primeiro, como seria todo o álbum com você cantando, lá no início dos anos 80? E, principalmente, o que teria acontecido se Paul tivesse feito outra escolha, a de ser um músico ‘profissional’ e não tivesse nunca sido demitido do Iron? Talento ele tinha de sobra.

Abraços,
Xandão

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OUÇA O ÁLBUM DI’ANNO, PRIMEIRO APÓS A SAÍDA DO IRON MAIDEN

Sobre o autor

Xandão

Xandão é zagueiro profissional, roqueiro e jornalista nas horas vagas. Mesmo que essas horas vagas ocupem de 9 a 10 horas por dia em trabalhos por aí, tipo Rádio Globo, UOL, R7 e MSN.