Colunistas Juliano Barreto

Courtney Barnett, natação, Freud e um miojo fumegante

Courtney Barnett

O casal vai até um bairro distante, residencial, para olhar uma casa à venda. A compra não deve acontecer agora. Elas não têm dinheiro ainda. Só que mais cedo ou mais tarde chega a hora de pensar em um futuro juntas, certo?  Na visita ao imóvel, reparam em uma foto dos antigos moradores largada em um canto. Vem o pensamento de que, qualquer um com $ 500 mil sobrando, vai demolir ou reformar a casa toda. Memórias, sonhos e histórias das pessoas da foto antiga vão desaparecer para sempre. É assim que funciona. Mas isso não deixa de ser triste (“Depreston”).

Comer três pacotes de miojo por dia e duvidar das coisas terríveis que falam sobre glutamato monossódico (“Three packs a day”), admitir que fumar maconha no bong é complicado (“Avant Gardener”), tentar impressionar um carinha na aula de natação, perder o fôlego e quase se afogar no processo (“Acqua Profunda!”), e por fim após destrinchar todas as diferenças com a namorada, chegar à conclusão de que mesmo sendo totalmente diferentes, no final tudo fica bem se ambas as partes gostarem do Christopher Walken (“Pickles from the Jar”).

Essas situações servem todas como bases para composições de Courtney Barnett. São retratos falados de uma rotina que, nos seus detalhes quase insignificantes, revelam que as mais importantes questões da vida não escolhem momentos grandiosos para serem feitas e respondidas. É possível demonstrar amor, tristeza e amizade discutindo sobre quantidade de sódio do macarrão instantâneo —ou assumindo apaticamente que o suicídio é de fato uma opção (“Kim’s Caravan”).

O elo improvável entre o cotidiano e a contemplação freudiana do “o que estou fazendo com minha vida?”  das letras de Courtney é emoldurado por um som tão honesto quanto a franqueza de quem fala “Eu quero sair, mas quero ficar em casa” (Nobody Really Cares If You Don’t Go To The Party). Se todo esse papo sobre as letras não chegou a te empolgar, o som com cara de hit da MTV dos anos 90 empolgará.

Quando toca ao vivo, a australiana de 29 anos pesa a mão na guitarra acompanhada apenas de um baixista e de um baterista. Nas versões de estúdio, até ouve-se um piano aqui e um arranjo mais bonitinho ali, mas a simplicidade do som se sobressai. Em um programa especial da estação de rádio americana NPR que discutia os melhores do ano de 2015, uma das convidadas do programa “All Songs Considered” fez algumas ressalvas antes mas acabou comparando Courtney Barnett ao Nirvana. O que parecia meio forçado, acabou sendo referendado unanimemente pelos outros apresentadores. “Sem dúvida, são animais da mesma espécie”.

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De 2013, quando começou a aparecer com nome e sobrenome no EP “A Sea of Split Peas” e não mais como guitarrista das bandas dos outros, a moral de Courtney só aumentou. Com o álbum “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, ganhou Grammy, ganhou perfil na New Yorker, fez turnê mundial (felizmente passando pelo Brasil!), fez clipes engraçadinhos, ganhou e rejeitou o status de revelação, esperança do rock, musa indie e mais um outro tanto de coisas. Em 2017, Courtney começa trabalhar em um novo álbum. As expectativas são grandes, mas ela mesma já deu o recado: Put me on a pedestal and I’ll only disappoint you. Tell me I’m exceptional, I promise to exploit you (“Pedestrian at best”).

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