Colunistas Juliano Barreto

Forrest Gump do rock chega ao Netflix

Os ovos e a galinha do punk, por assim dizer…

Se não quiser assistir ao documentário “Danny Says” (que dura 1h43min), que felizmente está disponível no Netflix dois anos após seu lançamento, você pode tranquilamente aceitar a definição da “Rolling Stone” sobre Danny Fields: “O homem que, sem dúvida, ajudou a definir o tipo de música que você está ouvindo agora, independentemente do tipo de música que você esteja ouvindo agora”. Se parecer exagero, acredite na manchete do Guardian sobre o documentário: “Danny Fields: o cara mais legal do mundo de quem você nunca ouviu falar —até agora”.

Como alguém pode ser tão influente e tão desconhecido do público em geral?

Judeu, homossexual assumido e aluno brilhante de Harvard, Danny Fields largou uma vida que poderia ser tão prodigiosa quanto careta, para mergulhar na cena vanguardista, chapada e porra-louca da “Warhol Silver Factory”, em Nova York.  Sem nunca ter subido em um palco com uma guitarra pendurada no ombro, Danny ajudou a descobrir, aprimorar, divulgar e amplificar artistas de importância histórica para o mundo da música.

Sem fazer spoiler, vamos a uma listinha de estrelas que contaram com Danny Fields para assinarem seus primeiros contratos, produzirem seus primeiros discos ou mesmo arrumarem lugares para fazerem os seus primeiros shows: The Doors, Cream, Alice Cooper, Lou Reed, Nico, Judy Collins, Stooges, MC5 e, claro, Ramones (Ouvir Danny relembrando que teve que pedir dinheiro emprestado para sua mãe para pode lançar e divulgar os Ramones é um dos pontos altos do doc).

O “e, claro, Ramones” é por causa da música “Danny Says” que dá nome ao documentário e que fisga os fãs da banda logo de cara. Quem não gosta ou não se importa com a história da banda punk, porém, não terá do que reclamar. O documentário mostra tantas histórias absurdas envolvendo Danny Fields e seus contratados, que faz você pensar que é mais correto dizer que os Ramones ficaram famosos por causa de Danny Fields e não que Danny Fields ficou famoso por causa dos Ramones.

Se parecer exagero, veja só que história mais Forrest Gump:

Nos anos 1960, Danny Fields chegou até a interferir (para o bem e para o mal) na história dos Beatles. Antes de ser manager e produtor, o americano foi repórter musical da revista para adolescentes “Datebook”. Na inocente publicação, fez a incendiária manchete “Lennon: Os Beatles são mais populares que Cristo”. A divulgação dessa frase, que havia sido dita por John Lennon meses antes, e passado desapercebida pelos leitores britânicos, criou uma caçada anti-Beatles nos Estados Unidos. Foi um dos motivos para que a banda de Liverpool desistisse de fazer apresentações ao vivo.

Anos depois, em um jantar com Paul e Linda McCartney, de quem Danny era amigo desde que a moça usava o nome de solteira, Linda Eastman, Danny chamou o beatle de canto e falou:

— Lembra aquela capa falando que os Beatles eram mais populares que Cristo? Fui eu!

 

 

 

 

Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.