De repente bateu uma saudade de minhas fitas - Bem Rock
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De repente bateu uma saudade de minhas fitas

Lá vai mais um texto falando de idade. Avançando rapidamente, no caso. Mas outro dia, com alguns amigos, rolou um papo sobre fitas cassete. Nem lembro o porquê de termos chegado a esse assunto. De qualquer forma, foi gostoso recordar.

Como passei a adolescência em Curitiba, meu acesso a coisas novas naquela década de 80 e início de 90 era muito em função de um primo, o Dudão, de Santo André. Quando nos encontrávamos, ele sempre tinha algum punk rock novo para me apresentar.

Tinha um amigo em Curitiba, o Walter, que vivia situação parecida. Acho que era um primo ou amigo de São Paulo que o abastecia de novidades. E essas novidades, quase sempre, chegavam em fitas cassete gravadas a partir do álbum original.

Com essas gravações, o que ainda rolava de vez em quando era uma troca de fitas e, depois, uma regravação. Ou seja, do disco de vinil para uma fita cassete e, dessa mesma fita, para outra. Assim ‘pirateávamos’ o sistema, mas muito mais motivados a ter aqueles lançamentos que nunca chegariam nas lojas (ou demorariam muito). Muitas vezes também esse meu amigo me pedia uma fita virgem para gravar nela o que havia recebido.

Lembro, por exemplo, que assim conheci Dead Kennedys, Toy Dolls (ok, aos 12 anos eu gostava), Excel, Suicidal Tendencies, a coletânea punk sueca The Vikings are Coming, P.I.L e muitos outros, além de receber coisas novas de bandas que já conhecia.

Ok, ok. Quando digo ‘muitos outros’ e ‘coisas novas’ é porque, na real, não lembro o que mais eu tinha. Era uma coleção até que legal de fitas. Mas não consigo lembrar bem de minhas outras gravações. GBH, tive uma. Outra do The Cult. E acho que é o máximo que me vem à mente agora.

SOBRE VINIL
O texto abaixo foi publicado no Morfina, antigo site do qual eu fazia parte com bastante gente boa por aí, há aproximadamente 10 anos. Sei lá, dá uma certa vergonha reler agora. Mas bora publicar novamente:

Já teve prazer em convidar as pessoas para conhecer sua coleção. Quanto tempo faz? Não consegue mais lembrar. Assim como não sabe o número de discos de vinil que guarda em seu apartamento.

Aliás, não lembra também quando começou a falar em vinil. Gostava quando apenas mencionava sua coleção de discos. Era o suficiente. Faz tempo. Hoje tem uma coleção de discos de vinil. Ou, o que é pior, uma coleção de discos velhos.

Um dia foram valorizados. Os amigos e amigas o visitavam para passar horas escolhendo o que ouvir na seqüência. Era querido. Ele e sua coleção de discos. Só assim, coleção de discos. Para os amigos e amigas, que agora sumiram.

Às vezes, apenas, recebe alguma visita. Mora sozinho. Nunca casou. Nunca teve ninguém com exclusividade. Também nunca foi de ninguém. Só tem a coleção de discos. E ela o tem. As visitas rarearam.

A coleção já não chama atenção dos outros. Mas ele ainda sente orgulho dela. Na última oportunidade em que tentou vangloriar-se, deu uma festa. Algumas pessoas, mais jovens que ele, foram convidadas.

Olharam a coleção com graça e curiosidade. Mas nenhuma admiração. Ele não gostou daquele olhar. Como se estivessem num museu. Mas piorou. Quanto notou que, os mesmos olhares destinados à coleção, também vinham em sua direção.

Sobre o autor

Xandão

Xandão é zagueiro profissional, roqueiro e jornalista nas horas vagas. Mesmo que essas horas vagas ocupem de 9 a 10 horas por dia em trabalhos por aí, tipo Rádio Globo, UOL, R7 e MSN.