Colunistas João Botelho

Do ódio ao amor, pela mesma banda

O Sigur Rós no Boston Calling 2017 (Jesse Costa/WBUR)

É comum que um artista desperte amor e ódio na mesma intensidade em diferentes pessoas. Poderia citar aqui um caminhão de exemplos, passando pelos mais variados estilos musicais. Já não é tão comum que uma mesma pessoa ame e odeie uma banda. Até pode ser normal cultivar esse dois sentimentos se, por exemplo, você adora um álbum e detesta outro, mas, de novo, já não é tão normal apreender a amar uma banda que você começou odiando. Seguindo a escola Leandro Leal de escrever sobre rock, vou contar aqui uma história pessoal de como uma relação de amor e ódio (mais bem, ódio e amor) por uma banda aconteceu comigo.

Os personagens da minha história são os islandeses do Sigur Rós. A primeira vez que me deparei com eles, por acaso, foi lá em 2001, quando a banda já havia lançado dois álbuns e começava a ganhar o mundo, na última edição do saudoso Free Jazz Festival, que seria o precursor do até mais saudoso TIM Festival.

Na hora em que o show deles começou, eu não fazia ideia do que esperar e, para falar a verdade, nem lembrava que tocariam naquela noite. O estranhamento de quem havia crescido ouvindo heavy metal e vinha expandindo aos poucos seus horizontes roqueiros foi tanto que desisti de continuar vendo. Do estranhamento, veio a revolta. Por que uma banda como aquela, que parecia fazer música para baleias das águas gélidas da Islândia, estava tocando no Brasil?! Quem havia tido a genial ideia de escalá-los?

Não sabia nem nunca soube com precisão essas respostas, mas o primeiro impulso, no embalo da cerveja consumida, foi culpar o Fabio Massari, que estava ali ao meu lado na plateia e havia acabado de publicar um livro sobre o rock produzido na Islândia. Na companhia de um amigo tão revoltado quanto eu com a situação, estivemos ao ponto de abordar o Massari de forma truculenta e tirar satisfações.

Para nossa sorte, e do público interessado no show, desistimos da ideia bizarra. Para minha sorte, como deve fazer todo mundo que quer falar mal de um artista, não desisti de escutar o Sigur Rós.

Vou pular os detalhes de como fui aprendendo a gostar da banda e me encantar com a beleza melancólica das suas melodias e passar logo à atualidade. Mais de 15 anos depois daquela noite no Jockey Club de São Paulo, pude enfim voltar a vê-los ao vivo, no Boston Calling 2017.

Tinha tudo para ser um fiasco: show ao ar livre em uma noite de chuva fina e frio, com temperatura em torno dos 10 graus, e as músicas longas e arrastadas do Sigur Rós. Para quem gosta da banda, já deve ter disparado o alarme mental. Pelo contrário! Isso parece mais com o cenário perfeito para a melancolia do trio islandês.

Pois foi exatamente o que aconteceu. A escolha do repertório não foi das melhores. Fez falta uma sequência de músicas dos álbuns mais acessíveis da banda, “Takk…”, de 2005, e “Með suð í eyrum við spilum endalaust”, de 2008. Mas, no fim das contas, isso não fez nenhuma diferença para mim.

Sou um afortunado, e não me refiro a dinheiro. Já fui a mais shows na vida do que todos os membros, juntos, de qualquer organizada do Corinthians. Vai, tirando a Gaviões. E saí embasbacado de vários deles. Mas juro que não me lembro de, em 30 anos de roqueiro, ter chegado ao fim de um show com uma sensação tão prazerosa quanto a que tive depois de ver o Sigur Rós em Boston. Podem achar que é exagero para dar leitura, como se o Bem Rock tivesse audiência, ou que pareço ridículo. O fato é que me senti em absoluta paz, tão em paz que nada, seja a conjunção dos astros, o preço do petróleo ou o caos político no Brasil, podia me abalar naquele momento.

Como tentei mostrar com minha experiência, a inserção no universo do Sigur Rós é difícil e não necessariamente compensadora. Para ver um show deles, é preciso gostar da banda. E ainda assim, se você não se conecta e entra no transe, não aproveita tanto quanto poderia. Então, depende de cada um. Abaixo, é possível ter uma ideia do que vi em Boston e conferir o que o povo que estava lá têm comentado na página do Sigur Rós.

https://sigur-ros.co.uk/tour/2017/201705-boston/

Se já não fosse o bastante, houve mais shows que valeram a ida ao dia de abertura do Boston Calling 2017. O Car Seat Headrest só não foi melhor porque durou pouco e, para mim, merecia ter ficado em uma faixa de horário com mais tempo disponível para apresentar, na voz inconfundível de Will Toledo, sua mescla de barulho e melodia. Lucy Dacus e Whitney também foram surpresas agradáveis para estes ouvidos umedecidos pela garoa, principalmente o Whitney, que conquistou, com sobras, o direito de passar a estar disponível offline no meu Spotify. O talvez superestimado Bon Iver, sobretudo por aqui nos Estados Unidos, seria o último destaque do dia/noite antes da apoteose de sons, imagens e sensações proporcionada pelo Sigur Rós, tudo devidamente regado à cerveja IPA da local Samuel Adams.

Como parte negativa, houve uma ou outra questão de organização. Sim, um festival em Boston também pode ter problemas de organização. Às vezes, tecnologia e cultura do politicamente correto em excesso mais atrapalham do que ajudam. Foi o caso. Não havia programação impressa, substituída por um aplicativo para celular com horários, informações gerais e mensagens sobre o andamento dos shows, além de “promoções” dos patrocinadores. O problema é que, em ambientes com concentração de pessoas e celulares, a internet pode falhar. Isso faz com que, por exemplo, você perca parte de um show que, sabe-se lá o porquê, foi adiantado, o que, imagina-se, tenha sido avisado pelo aplicativo, mas não para quem estava sem conexão.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.