Colunistas Leandro Leal

Free Humberto, free

“Minha vida é tão confusa quanto a América Central, por isso não me acuse de ser irracional”. O verso de “Infinita Highway” ecoava entre meus neurônios, tocado pela minha jukebox mental, ativada por uma associação nebulosa qualquer. O Spotify pode não ser lá muito rentável para os artistas, mas não dá para negar a maravilha que é para nós, simples amantes da música. Depois de apenas alguns cliques, estava lá eu ouvindo a clássica terceira faixa de “A Revolta dos Dândis”. E, já que estava por ali, decidi escutar desde o começo. E que baita disco este do Engenheiros do Hawaii.

Humbertão, à direita: há 30 anos aguardando a absolvição

Não pega muito bem admitir isto publicamente. Escrever e publicar um texto elogioso como este, então, é quase um tiro no pé. A intelligentsia não simpatiza nada com a banda de Humberto Gessinger. Pagode anos 90? Hype! Lambada? Cool! Sertanejo? Brilliant! Os descolados redimiram todos os gêneros e bandas um dia considerados cafonas, mas não os Engenheiros. Condenada à danação eterna do pop, a banda gaúcha continua não merecendo nenhuma interjeição maravilhada em inglês. Sua música se mantém tosca demais para figurar nas playlists das festinhas em que reinam astros do passado reabilitados, como Molejo e Sidney Magal.

Para esses, Engenheiros não entra sequer na categoria “prazeres culposos” – aquela em que se enquadram coisas que “gosto, mas não espalha”. Humberto (a quem, no fim, a banda se resume), se depender deles, está condenado ao limbo cultural, acompanhado apenas de sua pretensão, de sua filosofia barata e de seus versos trocadilhescos.

Lançado em 1987, “A Revolta dos Dândis” é mais um álbum a completar “aniversário redondo” este ano, ao lado de tantas obras importantes. E não seria o próprio disco uma delas? Marcada por uma turnê comemorativa em que a banda executa o álbum na íntegra, a data se apresenta como ótima oportunidade para reavaliar os dois, álbum e banda.

O disco começa com a faixa homônima, a primeira de duas. “A Revolta… Parte I” apresenta a essência de Humberto: pedantismo e pretensão filosófica formatada em jogos de palavras e sentidos. Mas, aqui, o Trovador dos Pampas está em grande forma. Embaladas por uma base de baixo e gaita, remetendo ao “trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão”, várias palavras opostas (“gregos e troianos”, “a solidão e a cidade”, “os outros e vocês”) se contrapõem e compõem a letra existencialista, que justifica a menção de “O Estrangeiro”, de Camus – bem menos polêmica do que a feita pelo The Cure em “Killing An Arab”.

Na faixa seguinte, Humberto mantém o desempenho. O que se ouve sobre a delicada cama de guitarras elétricas – instrumento a que a música faz menção – é uma sequência de versos emblemáticos que traduzem a angústia juvenil. O mais famoso, “a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes”, se assemelha metalinguísticamente a um slogan.  Um bom resumo da bela “Terra de Gigantes”.

Na terceira faixa, Humberto abandona o quarto na casa dos pais e ganha o mundo, a estrada. Em “Infinita Highway”, novamente, o compositor se aventura no existencialismo, na busca de sentido – “quando eu vivia e morria na cidade eu tinha de tudo, tudo ao meu redor, mas tudo o que eu sentia era que algo me faltava” – e no niilismo – “não queremos saber o que sabemos, não queremos nem saber”. Fala da completa solidão da existência e questiona o quanto, de fato, há de liberdade em ser livre. Há, também, a analogia geopolítica que abre este texto.

Conhecida por muitos como “Ana”, “Refrão de Bolero” fez parte da trilha sonora da fossa de muitos adolescentes nos anos 1980 e 1990 – da minha, pelo menos, fez. Motivados pelo fora da musa (fictícia?), há versos preciosos como “eu que falei sem pensar, agora me arrependo roendo as unhas, frágeis testemunhas de um crime sem perdão” e “coração na mão como um Refrão de Bolero, eu fui sincero como não se pode ser”. E o que dizer do refrão “Ana, seus lábios são labirintos que atraem meus instintos mais sacanas”? Como culpar Humberto por esse trocadilho – infame, mas tão irresistível quanto os lábios da Ana?

Há, também, bons momentos no restante do álbum – a segunda parte da faixa título, por exemplo –, mas nada que se equivalha a estas quatros músicas. Mesmo assim, presentes em qualquer lista de clássicos nacionais dos anos 1980, elas já bastam para colocar “A Revolta dos Dândis” como um dos grandes discos produzidos pelo rock brasileiro na Década Perdida. Quantos álbuns de rock, brasileiros ou não, tem uma sequência inicial como esta? Sua qualidade, para muitos é discutível, o sucesso, não. Todas tocaram muito no rádio, no Chacrinha e no som do vizinho chato – que, como Humberto, se levava a sério demais. Talvez esteja aí outra das razões para a rejeição até hoje enfrentada pelo Engenheiros: o fã típico era (é) tão mala quanto o líder da banda, e era (é) impossível não associar um à outra.

Por tudo isso, senhores e senhoras descolados do júri, peço que apreciem esta apelação com carinho – o carinho de quem, admitam, cresceu ouvindo esses hinos – e considerem o pedido de absolvição de Humberto Gessinger. Já está na hora de “Infinita Highway” tocar nas suas festinhas hypadas.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.