Colunistas João Botelho

Goiânia Rock City?

goiania_450editada1Pode parecer estranho a você, leitor de outros Estados, mas Goiânia tem a fama entre os locais de ser uma rock city. “Como assim?”, deve ter se perguntado esse mesmo leitor, “Goiânia não é o templo do sertanejo?!”.

Depois de cinco anos de experiência por lá, posso tentar responder as duas perguntas. Sim, Goiânia é, para minha infelicidade, o templo do sertanejo, mas essa não é, para minha felicidade, sua única característica.

A cidade também tem uma cena agitada e, por causa de algumas bandas expoentes, badalada de rock alternativo. Mas isso é suficiente para que Goiânia mereça a alcunha de rock city? É o que tratarei de responder a partir de agora na minha visão particular de um forasteiro que andou por lá um bom tempo.

Para começar a tarefa, preciso discutir com você, caro leitor, o que vem a ser uma rock city. É uma cidade em que se curte rock ou em que impera o bom e velho rock and roll? Se sua resposta for a primeira opção, Goiânia seria, com certeza, uma rock city. Se for a segunda, não seria, também com certeza.

Eu prefiro a segunda definição, o que não significa que Goiânia não tenha um pouco, ou até muito, de rock city. Então, vejamos. Qual outra capital brasileira fora São Paulo tem três festivais anuais de rock alternativo? Sequer estou seguro que São Paulo tenha três ou mais com periodicidade fixa. Há o Lollapalooza, claro, mas não me lembro de outros que são realizados todo ano, faça chuva ou faça sol, em terras paulistanas.

Pois Goiânia tem três: Bananada, Goiânia Noise e Vaca Amarela. Se meus conterrâneos paulistanos se ofenderam e pensaram “ah, são festivais pequenos”, estão enganados. O Bananada está crescendo tanto que teve uma estrutura de média para grande na edição de 2016 e, ainda assim, não conseguiu dar conta da quantidade de público.

Curiosamente, é por causa do público que Goiânia perde pontos preciosos, na avaliação deste forasteiro, para merecer a alcunha de rock city. Não quero dizer que falte público para manter a cena roqueira, ainda que, em alguns casos, até falte. A questão é outra.

O problema, ou solução para alguns, é que as/os goianienses curtem uma festa, viu. Muita gente vai a tudo quanto é lugar, do sertanejo ao rock pesado, passando pelo samba, desde que tenha a quem beijar. O resultado é que, muitas vezes, as pessoas não se importam com o que está tocando, ou, em um sentido contrário, se a festa for boa, curtem qualquer estilo musical que rolar.

Por um lado, esse tipo de público ajuda a manter lugares de diferentes estilos. Por outro, é um público fácil de agradar, que não se importa que a programação de shows tenha um monte de banda cover ou em fim de carreira nem que os DJs de rock não saiam do lugar comum e evitem se arriscar. Ao contrário, a galera prefere assim, o que faz com que as pessoas estejam menos expostas a novidades na programação do dia-a-dia. Até quando é uma banda iniciante da cena local que toca, o som é, na maioria das vezes, um rock básico e pouco ou nada inovador.

A parte mais legal desse história toda é que, nos três festivais que rolam anualmente, os produtores são gente esperta e competente no que faz. Então, colocam para fechar as noites bandas rodadas da cena nacional que são capazes de atrair uma quantidade maior de pessoas e recheiam a programação com novidades e bandas menos conhecidas de diferentes lugares do Brasil, da América Latina e do mundo.

Muitas vezes acertam nas escolhas, muitas vezes erram, mas continuam fazendo seus festivais e oferecendo ao público local uma quantidade enorme de bandas da cena alternativa a cada ano. É por essas e outras que, apesar da predileção goianiense pelas fórmulas musicais já muito repetidas e testadas, aparecem os frutos, com expoentes do melhor que se faz no rock alternativo nacional como Boogarins e Carne Doce.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.