Colunistas Leandro Leal

Gosto de U2. Mas juro que sou legal

Bono e seus amigos, há 30 anos

Já tem uns anos, David Cameron, então primeiro-ministro da Inglaterra, declarou publicamente seu amor pelos Smiths. Motivo de orgulho? Não para os antigos líderes da banda. O primeiro a se manifestar foi Johnny Marr, que mandou o recado: “Não, eu te proíbo de gostar”, disse ele, lembrando um certo livro em que o protagonista quer impedir a ex-namorada de continuar a ouvir as músicas da sua banda preferida – coincidentemente, os Smiths. Não demorou a Morrissey, antigo parceiro musical de Marr, também expressar sua desaprovação. Cameron, afinal, era o extremo oposto do que sempre defenderam os compositores de “The Queen Is Dead” – um “tory”, que, traduzido para a realidade local, seria um “reaça”. Os Smiths vieram das classes operárias, e era para elas que compunham e tocavam.

Vai dizer que nunca aconteceu com você? Não alguma autoridade de quem você não vai muito com a cara ter dito que gostava da sua banda – não que não possa ter acontecido, mas me refiro a algo mais comum a todos, mortais da plateia. Aquela hora em que alguém que você abomina diz ser fã da sua banda preferida. Um babaca escroto como aquele não pode ter os mesmos ídolos que você, sujeito sagaz e gente boa. Um imbecil que estaciona ocupando duas vagas não pode ter se sensibilizado com as mesmas letras que te fizeram companhia nos momentos mais importantes da vida. Mas aí, por acaso, vocês se encontram no show do Malkmus no Beco – aquele de 2013 –, e você se dá conta de que, putz, realmente vocês têm isso em comum. A partir de então, não tem jeito, inicia-se um processo de desencanto com Malkmus. É uma pena, mas não dá para compartilhar nada com aquele cuzão.

Acontece também de forma diferente. Certas bandas pertencem à prateleira de gostos dos otários, e é só saber que uma pessoa que ainda estava em período de avaliação gosta de uma delas para você chamá-la no seu departamento pessoal particular e avisar: “Infelizmente, seu contrato não será prorrogado.” Como respeitar plenamente alguém que goste de, sei lá, Coldplay? Foo Fighters? Nem a pau. Pearl Jam? Pffff. U2? Tá de brincadeira. Tudo banda de coxa, de playboy, de mauricinho. Gente para quem “top” é como vírgula.

Só que, às vezes, a equação não é assim, tão precisa. Pode ser que alguém que você respeita e tem como referência – inclusive musical – se diga fã de uma dessas bandas. Erro no sistema. O cara conhece tudo do Radiohead, do Lou Reed, adora o Nick Cave e o Bob Dylan. Como pode essa mesma pessoa também curtir o U2? “Banda de quem faz amorzinho”, definiu meu primo. Quatorze anos mais novo, o Renato sempre me admirou. Mas isso não o impediu de tirar um sarrinho da minha cara ao ler um post meu no Facebook manifestando o desejo de ir ao show em que os irlandeses vão tocar “The Joshua Tree” na íntegra. Além de este ser um dos meus álbuns preferidos da vida, o show de abertura vai ser do Noel Gallagher – ex-líder do Oasis, outra banda para a qual muita gente cool torce o nariz.

Respondi ao comentário do meu primo de forma leve e superficial. Disse que gostar de Bono & Cia. é a diferença entre ser hipster (caso dele) e “indie velho” (meu caso). Uma bobagem, claro. Muitos dos meus pares detestam U2, assim como, imagino, alguns dos dele devam gostar. Mas essa história fez lembrar da minha própria história com essa banda, que me ensinou um pouco sobre estereótipos.

Aos 15 anos, eu não apenas era fã dos Smiths: era um torcedor. Olhava para as outras bandas que, como eles, também eram apontadas como “uma das mais importantes dos anos 1980” e as encarava como rivais na conquista por um troféu de campeonato. O maior adversário, pelo que eu lia na imprensa especializada, era o time que tinha Bono como capitão. Então, apesar de mal conhecer o U2 – pouca coisa além de “Sunday, Bloody Sunday” –, eu não gostava e fazia questão de permanecer na ignorância. Me aprofundar na obra deles seria o mesmo que ir parar no meio da torcida inimiga, onde haveria vários boyzinhos, todos eles populares e muito bem inseridos na escola e na sociedade. Eu era – ou ao menos gostava de me ver como – um “outsider”. Se eles gostavam, não podia ser coisa boa.

Só que, naquele mesmo ano, me deram uma fita cassete gravada com “Achtung, Baby”. Então lançado há pouco, o disco era muito bem falado pelas revistas que eu lia e por amigos mais velhos. Foi um deles – o Mauro, se não engano – quem me deu a fita. Resolvi, finalmente, dar uma chance à banda. Afinal, o Mauro e a namorada Patrícia eram fãs do U2, mas nada tinham em comum com a imagem que eu fazia dessas pessoas: eram descolados, cultos e divertidos. Se eles gostavam de U2, bom, não custava nada descobrir porque. O fim da história é fácil adivinhar. Passados 25 anos, “Achtung, Baby” está na lista dos meus discos favoritos ao lado do “Joshua Tree”, mencionado parágrafos atrás.

O U2 é uma muito banda popular. Popularíssima. Há décadas, enche estádios como poucas bandas foram ou são capazes. Na época em que ainda se vendiam discos, os deles estavam sempre nos topos das paradas, mesmo lugar ocupado pelos seus singles e clipes. Mas sua maior proeza era aliar o sucesso comercial à qualidade artística. Afinal, outros artistas alcançam as mesmas cifras produzindo coisas acessíveis, mas sem nenhum mérito. (Em outras palavras, fazendo música ruim.) Bandas assim, tão abrangentes, têm fãs de todos os tipos. Há, sim, muitos babacas entre eles, mas, também, muita gente boa. Porém, como na vida em geral, entre os fãs de bandas como o U2, os imbecis são maioria.

Mas você ou o meu primo Renato pode, simplesmente, não gostar de U2. Achar a emoção com que Bono canta exagerada e, ainda assim, ensaiada; seu ativismo, conversa para boi dormir; seu messianismo, risível. Eu entendo e, em parte, concordo. Não vou usar aquele argumento “você pode não gostar, mas tem que admitir que…”.

Você não tem que admitir nada, a não ser o fato de que existem cretinos que amam as mesmas bandas que você, assim como pessoas legais podem gostar de bandas para você repugnantes. Por falar nisso, além do U2, eu também gosto do Pearl Jam, viu?

(Ah, o tal livro de que falo no começo do texto é o meu, Quem Vai Ficar Com Morrissey?. Ficou curioso? Você pode comprar aqui.)

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.