Colunistas Leandro Leal

Jesus e o Desespero

Irmãos Reid: os inventores da Fórmula Jesus

Uma incapacidade de articular raciocínios que requeiram mais que uma palavra – e essas palavras únicas, sempre adjetivos, todos elogiosos e superlativos. Uma inabilidade de fazer qualquer outra coisa além de dar play. De novo, de novo, de novo. A música nova do Jesus And Mary Chain me deixou desesperado. É assim que, em conversas com amigos, me descrevi diante da audição de “Always Sad”.

Mas não aquele desespero extremado, de ações imprudentes. Era mais um desespero como escrevi acima, de não saber o que fazer, o que falar. Bem, talvez a minha capacidade de expressão tenha sido, de fato, comprometida, e “desespero” não seja a definição mais apropriada para o meu estado. Mas você entendeu, acho. Fato é que, se me faltaram palavras para descrever a última criação dos irmãos Reid, a eles, ao contrário, vieram todas as necessárias. E não foram muitas.

“Always Sad” é econômica, a começar pelo título seguindo a Fórmula Jesus, com no máximo três palavras – “Deep One Perfect Morning” é uma das poucas exceções que me ocorrem.  Os versos são curtos, se repetem de forma cíclica, com uma mínima variação da primeira para a segunda estrofe, em que se alternam as vozes e o ponto de vista, do cara para a menina – outros exemplos clássicos da Fórmula Jesus, que funcionaram bem demais na maravilhosa “Sometimes Always”, Hope Sandoval nos encantando como a namorada que aceita de volta o “lucky son of a gun”. (Hope, por sinal, gravou uma versão praticamente etérea de “Drop”. Arrisco dizer que é, inclusive, melhor do que a original do Jesus.) O tema também é bem Jesus: melancólico, o sujeito admite que sempre será triste porque constata que a ex, a quem a música é endereçada, é a melhor que ele já teve. Musicalmente, “Always Sad” também segue a Fórmula Jesus: guitarras, ruídos, distorção e doçura.

O Jesus não é daquelas bandas que se reinventam a cada álbum. Sua contribuição para renovação do rock já foi dada há muito tempo, quando a banda e sua fórmula surgiram, influenciando uma infinidade de outras, do My Bloody Valentine ao Black Rebel Motorcycle Club.

Os irmãos Reid não são os únicos músicos que se aferram a uma fórmula, repetindo-a ano após ano. Ao contrário do que acontece com a maioria dos que fazem isso, porém, eles não se tornaram chatos por serem repetitivos. Escutar uma música nova deles e perceber que ela poderia ter sido lançada há 30 anos é um alívio. Traz aquela sensação reconfortante de que, felizmente, certas coisas não mudam. Não, não é apenas isso. Ainda continuam me faltando palavras melhores. Deve ser porque o desespero ainda não passou.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.