Colunistas Juliano Barreto

Foi no Lolla? Vão ‘roubar’ mais $5 de você!


Reclamar da organização de festivais no Brasil é tão clichê quanto aquela resenha de show falando que “o vocalista da banda conquistou o público brasileiro com o seu carisma e performance inspirada”. O cara fez o que ele faz toda noite. Beija uma bandeira, tira a camisa na música rápida e faz cara de filhotinho abandonado na hora da balada. Com os festivais, a rotina também é previsível.

Preço exorbitante, taxa de “conveniência”, line-ups esquizofrênicos, falhas no som, lamaçal de urina nos banheiros, filas enormes (para entrar), filas enormes (para pegar ficha), filas enormes (para comer), filas enormes (para beber), filas enormes (para ir embora).

Você precisa ser, além de muito otário, muito persistente para continuar a ir em um festival.

Só que esse não é um texto sobre o show “inspirado e único” de uma banda que faz shows inspirados e únicos há 36 anos. Nem sobre os problemas comuns de festivais feitos no Brasil.
Esse é um texto para reconhecer o Lollapalooza 2017 como um marco no desrespeito ao consumidor. O consumidor, aquele incansável trouxa que é esculachado todo ano e volta depois, vai ter uma memória indelével do “Lolla”.

O festival, até que alguém prove o contrário, foi o primeiro evento de grande porte a usar uma pulseira com créditos pré-carregados para que os otários pagassem 15 reais em um pão com salsicha. A intenção era acabar com as filas e deixar todo mundo beber chopp vagabundo à vontade.

Isso não aconteceu. Pelo contrário, até para beber ÁGUA (R$ 6 o copo) era preciso esperar até 1h45 (uma hora e quarenta e cinco minutos). Esse tempo não foi registrado no intervalo entre os shows quando é esperado um pico na demanda. Foi durante todo o sábado e domingo. Até DURANTE o show do Metallica havia filas imóveis. Mesmo com 100 mil pessoas em volta de dois palcos diferentes, os caras tiveram a manha de não conseguir servir ninguém. Existiam bares para bebidas e bares para comida, cada um com sua fila quilométrica e nenhuma alma viva para dar alguma orientação. O coitado que quisesse tomar um refrigerante “orgânico” e um hambúrguer poderia perder umas 3 horas na empreitada. No fim teria sede ou fome do mesmo jeito. Poderia acontecer também de o cara ficar 40 minutos em uma fila e descobrir no final que a cerveja tinha acabado.

OK, os shows foram bons, o imbecil vai para casa jurando que não volta nunca mais. Mas volta.
Voltaria. Porque o imbecil foi tentar resgatar os créditos que colocou em sua Lolla Axe Cashless —a pulseira com nome em inglês que funciona igual ao Bilhete Único do busão. Ele queria só continuar a ser imbecil. Queria gastar cada centavo que colocou ali. Mas não conseguiu. Tentou por horas e não conseguiu. Ok, ao pegar o reembolso… o imbecil lê o seguinte parágrafo:

  1. Taxa de reembolso: Ao solicitar o reembolso o cliente estará ciente de que será cobrada uma taxa de serviço de R$ 5.00 para cobrir despesas administrativas sendo assim só serão permitidas solicitações de reembolso de valores superiores ao da mencionada taxa de serviço. 

Dessa vez foi demais. É inesquecível ser roubado dessa forma. Para ir em um festival no Brasil é preciso ser muito otário e ser muito persistente. Mas mesmo sendo muito otário e muito persistente, você consegue se sentir ofendido com uma palhaçada dessas. Porra, Lolla! Porra!

Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.