As amigas da Anitta.
Colunistas Leandro Leal

Meninas Superpoderosas também tocam guitarra

Se as redes sociais têm uma função, mais do que manipular a notícia e influenciar eleições, é a de atestar a genialidade dos nossos filhos/sobrinhos/netos. Não perdemos uma oportunidade de postar fotos e vídeos das proezas incríveis das nossas crianças. Seu filho rabisca suas paredes com um talento inigualável, e o mundo precisa conhecer o próximo Diego Rivera. 

     Mesmo bem menos afeito às redes do que, de certa forma, o Rogério, meu irmão, não foge à regra. Outro dia, me mandou pelo WhatsApp um video da Laura, sua filha, cantando um medley de “We Will Rock You” (Queen) e “Yellow Submarine” (Beatles) — essa última, transformada em “Submarine Yellow”. Me derreti, evidentemente. Nas conversas seguintes, falamos sobre a importância de cultivar esse interesse da menina pelo rock. Todo orgulhoso, prometi ajudá-lo nessa catequese.

     Tempo depois, ontem, acompanhei os dois ao supermercado para uma compra rápida. Enquanto o Rogério correu para pegar os produtos, fiquei no carro com a Laura. Lá vou eu mexer no rápido em busca de alguma trilha sonora para a espera.

     — Vou colocar uma música que a gente gosta. E a gente gosta de rock, né? — disse eu, ainda empolgado pela demonstração de bom gosto de outro dia. 

     — Eu gosto da música das Meninas Superpoderoras!

     — Que música é essa?

     — É aquela música que chama “Repara”… “Repara, que agora é hora, o show das poderosas…” As Meninas Superpoderosas, sabe, titio? A Docinho, a Lindinha… a Anitta! Eu adoro a Anitta!

     Gargalhei. Um pouco por achar graça na confusão da minha sobrinha do ídolo musical com as personagens do desenho animado, mas, principalmente, por estar encantado com aquela demonstração de personalidade. Enquanto eu e meu irmão queríamos (queremos, vai) que ela goste de rock, a Laura já tem suas próprias preferências.

     Em nenhum momento, porém, eu a repreendi ou disse que “isso não é música” — uma reação bastante comum entre adultos fãs de um determinado gênero quando os jovens ouvem algo que considerem inferior. O campeão de desqualificações do momento é o funk, estilo, aliás, em que surgiu a própria Anitta. 

     Já a postura de Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio, foi exatamente esta. Ao justificar a não escalação da cantora entre as atrações por conta do gênero musical, disse isso com outras palavras. Mas, “homem de visão” que é, prometeu para uma próxima edição do festival uma espécie de “Espaço Favela” — uma favela estilizada, “colorida e romântica”, que abrigaria shows de artistas como a cantora. “A música de favela está sendo consumida pela elite”, arrematou.

     Acontece que quando uma expressão artística extrapola sua origem, deixa de pertencer apenas a ela. Me refiro a esse funk de amplo consumo, não ao “proibidão”, de nada sutis alusões sexuais e apologia ao crime. As sucessivas demãos de verniz de produção criaram um funk tipo exportação, nada além de uma vertente do pop. É nessa categoria, o pop, que Anitta passou a lutar. Agora ela é peso-pesado, ouvida por pessoas de todo o mundo, inclusive por menininhas de quatro anos da Vila Mariana, que sabem o quão superpoderosa ela é.

     Não se trata aqui de defender Anitta e o funk, ou qualquer artista e gênero em especial. É mais uma questão de entender e respeitar o novo, o diferente, coisa que não passa pela cabeça dos moralistas que pedem a proibição do funk — no atual cenário retrógrado, em que uma exposição de arte foi cancelada diante de protestos ultrajados, a iniciativa deixa de ser apenas risível.

     Poderia dizer que preferiria que minha sobrinha gostasse de rock, mas acho que ela pode gostar também de rock. Para isso, vou fazer minha parte mostrando que meninas superpoderosas também tocam guitarra.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.