A Funhouse dos últimos tempos: definitivamente, já não era a mesma
Colunistas Leandro Leal

No fun

Quando anunciaram o encerramento das atividades da Funhouse, o que eu esperava eram reações parecidas com aquelas causadas pelo aviso do fechamento do Cine Belas Artes. No entanto, em vez da indignação de pessoas que já há muito não frequentavam o lugar – exatamente como aquelas que se opuseram ao fim da sala da Consolação – o que li e ouvi foram manifestações em tom nostálgico, em geral, dizendo “lembra como era legal?”.

Sim, foi mesmo legal. Foi mais que isso. Para mim, como para muita gente, foi cenário de muitos momentos divertidos e marcantes da vida. Tanto, que acabou se tornando, também, cenário de algumas passagens do meu livro, “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”.

No bar da Funhouse, clube alternativo na Bela Cintra, havia um belo retrato preto-e-branco de Bukowski. De camiseta regata, cotovelo apoiado sobre uma geladeira, o escritor segurava uma cerveja e sorria, convidando os frequentadores a fazerem o mesmo. A julgar pela quantidade de long necks a povoar as mãos dos modernetes, aquela proposta bonachona parecia mesmo irrecusável. Para o casal, certamente era. Inclusive para Lívia: mesmo longe de ser fã de cevada, vez por outra arriscava uma Xingu, preta e adocicada. Sempre que iam à Funhouse, além do infalível encontro com a simpática carranca do autor de “Cartas na Rua”, tinham a certeza de escutar “Gigantic”. Se o DJ não tivesse previsto a música em sua playlist, encostada na picape, Lívia usava de todo o seu charme para que ele revisse o repertório. Nas raras ocasiões em que o poder de persuasão dela não era suficiente, os dois subiam ao primeiro andar, onde a jukebox e uma ficha resolviam a parada. 

Mas foram, definitivamente, outros tempos. Hoje na faixa dos 40, os indie kids do começo do século não abandonaram apenas a pista do clubinho da Bela Cintra. Não é que tenhamos trocado a cena indie por outra: apenas trocamos a disposição para baladas da juventude pela preguiça do conforto do lar – ou, no máximo, do bar. Alguns contemporâneos meus que ainda insistiam em ir à Funhouse voltavam de lá com relatos sobre a completa transformação por que o lugar passou. Decoração, música, público. “Hoje só dá molecada”, diziam, se referindo à gente com nossa idade em 2002, 2004. As sucessivas mudanças do sobradinho desde que paramos de frequentá-lo eram compreensíveis tentativas de reinventá-lo, mantendo algo de sua essência. A medida de fechá-lo deve ter vindo com a decisão dos donos de jogar a toalha. Em tempos em que a maioria dos jovens prefere se divertir em baladas sertanejas, eletrônicas ou funk, qual o sentido de se manter um estabelecimento feito para um público que já não existe?

A última noite da Funhouse foi a de sábado passado, dia 29. Saudosista assumido, pensava em passar na casa antes disso. Sabia que, na derradeira festa, o antigo reduto indie estaria lotado, muito provavelmente, de outros quarentões nostálgicos. Sexta, bem no dia que antecedia a festa saideira, enfim apareci por lá. Ideia da minha namorada, que ia à balada na mesma época que eu, mas que só conheci muito tempo depois de ambos pararmos de frequentar o lugar. Melhor companhia para a empreitada, impossível.

Chegando lá, a emoção começou já ao passar pela hostess, que foi conferir o cadastro no computador e encontrou meu nome lá – o número do celular ainda sem o 9 que seria acrescentado a todos. A última vez que havia pisado naquela pista, se não me engano, fazia uns nove anos. Ao entrar de fato, entendi que o cadastro era das poucas coisas, se não a única, que a Funhouse dos últimos dias tinha em comum com a dos primeiros. O lugar em nada lembrava aquele onde batia ponto por volta de 2002. A elaborada decoração atual remetia a um parque de diversões e não ao disco do Stooges que originalmente havia inspirado o nome. Nas paredes agora pretas, nada dos antigos pôsteres de shows. Também não havia contexto para a antiga foto do Bukowski que antes ficava atrás do balcão do bar do térreo. O Velho Safado não combinaria com os atuais ornamentos dourados a imitar um carrossel. Tampouco poderia brindar com os atuais frequentadores – se bem que beber com desconhecidos nunca deve ter sido problema para ele. Preso na parede oposta ao bar, no entanto, ainda havia o enorme espelho e, sob ele, ainda existia o mesmo apoio onde tantos se encostavam para conversar com os amigos ou algum eventual alvo.

Ao avançar no caminho para a pista, mais novidades: os dois banheiros individuais do térreo haviam sido substituídos por apenas um, maior e feminino. Os homens, se precisassem, teriam que subir ao piso superior, onde encontrariam um banheiro masculino coletivo, semelhante a esses de qualquer boteco. Antes, no mesmo lugar, se encontrava um toilete unissex, que abrigava uma banheira desativada e, não raro, mais de uma pessoa – às vezes, de sexos opostos e usando as instalações de modo pouco sanitário. Nesse mesmo andar, a varanda fora vedada e a velha jukebox, de fichas e CDs, trocada por um aparelho touch screen, mais sem graça do que moderno. Nas ocasiões em que precisei subir até lá, notei que seu repertório também mudara de forma radical. Ao redor da máquina, a garotada dançava ao som de Lady Gaga e indistinguíveis hits de academia.

Pelo menos na pista, a música lembrava a dos velhos tempos. Depois que a banda saiu de cena para dar lugar ao DJ, balancei minha cerveja ao som de Interpol, de The Walkman, de Strokes e de outros lançamentos do início dos anos 2000. Mas também ouvi coisas como Echo And The Bunnymen e Cake, que, embora me agradassem, traziam à lembrança mais outras casas roqueiras do que aquela. Tudo, imaginei, fazia parte de uma tentativa dos DJs de apelar à nostalgia, fosse qual fosse.

As horas iam passando, e minha expectativa de que o público daquela noite seria composto em sua maioria pela velha guarda da Funhouse mostrou-se completamente furada. Mais e mais jovens – daqueles que colocavam Lady Gaga para tocar na jukebox – tomavam conta de todos os ambientes. Com eles, aumentava minha certeza de que a decisão de fechar a casa, uma das pioneiras do Baixa Augusta roqueiro, era a única possível. Quando os auto-falantes começaram a tocar um ritmo eletrônico que nem de longe lembrava rock, eu e minha namorada decidimos que havia chegado a hora de ir embora. Soube, então, que o responsável por aquela seleção pouco amigável era o jornalista Lúcio Ribeiro, um dos patronos da cena indie local. Pô, Lúcio, até tu? É, o caminho da saída era mesmo sentido obrigatório.

Antes de sair, encontramos o Ricky Levy. Host dos primeiros tempos da Funhouse, ele havia sido o responsável por digitar meu nome pela primeira vez no cadastro, o mesmo em que sua atual substituta havia me encontrado há pouco. Àquela noite, Ricky era apenas mais um que havia ido se despedir do sobradinho. E, provavelmente, também sairia com a certeza de que o tempo dele tinha mesmo se acabado.

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Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.