Colunistas João Botelho

No soy loco por ti, América

A banda argentina Él Mató a un Policía Motorizado (Reprodução/Facebook)

Não se trata de uma crítica a ninguém em especial. É mais bem um mea culpa tardio. Eu, assim como tenho certeza que várias e vários entre quem me lerá ou não me lerá, sempre ignorei o que se faz de rock nos nossos vizinhos latinos. Não estou falando de Fito Paez ou Maná, esqueçam isso. Estou na seara do rock alternativo.

Por uma série de razões culturais que não me atreverei a tentar explicar, o que se produz de indie rock na Argentina, ou no Chile, não me interessava. Para minha sorte, em todos os sentidos, isso mudou. Tive a oportunidade de passar uma temporada entre esses dois países, morando em Santiago.

Aproveitei, então, para conversar com gente que também curte rock alternativo e pedir dicas de bandas legais, de forma a amenizar um pouco minha ignorância e, até então, falta de interesse pelo indie rock de outros lugares que não os países anglo-saxões de sempre ou, no máximo, algum europeu de cultura eslava ou latina.

Hoje, quando ainda vou escutando melhor bandas que me foram sugeridas, posso dizer que estava muito enganado em ter demorado tanto para fazer isso. O mesmo vale para qualquer outra região ou país do mundo. Tenho certeza que a satisfação com a experiência seria igual se meu interesse fosse por, sei lá, o indie rock da África do Sul, da Estônia ou da Nova Zelândia.

Não estou fazendo propaganda do multiculturalismo e acho chato quase tudo que já ouvi do que se convencionou chamar de world music. Minha ideia é bem mais singela: qualquer lugar do mundo pode ter uma banda legal de indie rock te esperando para ser descoberta e ouvida.

É o que estou fazendo com Argentina e Chile e vou contar o que me agradou até agora e merece que se gaste um tempo para ouvir.

Da Argentina, o que mais gostei é, disparado (para aproveitar, o nome), Él Mató a un Policía Motorizado. É uma banda de La Plata, capital da Província de Buenos Aires, que existe desde 2003 e lançou neste ano seu terceiro álbum de estúdio.

Não vou rotular o som dos caras (ou seres, já que se definem com pseudônimos misteriosos como Pantro Puto, Niño Elefante e Doctora Muerte), assim como não farei com nenhuma das outras bandas, porque não sou fã dos rótulos nem quero predispor ninguém que se interesse em ouvir. O que adianto é que eles fazem um som melódico de guitarras, às vezes pesadas e distorcidas, e curtem letras minimalistas. As músicas abaixo ilustram bem isso.

Outra boa opção da Argentina é Bestia Bebé, uma banda mais recente, surgida em 2011 no bairro de Boedo, em Buenos Aires, e com dois álbuns de estúdio. Para quem gosta da língua espanhola, é um prazer poder ouvi-la em uma música como “Lo Quiero Mucho a Ese Muchacho”, e não em Despacito’s da vida.

Tão legal quanto é “El Uruguayo”, que confunde um pouco, ao se iniciar celebrando a amizade com um colombiano, mas, na verdade, é uma homenagem ao ex-meia uruguaio Rubén Paz, um dos ídolos da história do Racing. As duas músicas podem ser ouvidas abaixo, com uma surpresa para fãs de filmes de ação no caso da primeira e uma amostra da banda ao vivo, ainda que com pouca qualidade de som, no caso da segunda.

Do Chile, as representantes neste panorama muito preliminar e nada abrangente do indie rock feito em terras argentinas e chilenas são Camila Moreno, com que topei no festival Fauna Primavera, e Matorral, que vi abrindo para o ex-Verve Richard Ashcroft, durante a temporada em que estive morando em Santiago.

Camila Moreno é uma artista de Santiago que lançou seu primeiro álbum em 2009. Desde então, foram mais dois trabalhos de estúdio, sendo o último de 2015. Ela toca, compõe e canta para os álbuns e, ao vivo, se apresenta com uma banda. As músicas abaixo, “Libres y Estúpidos” e “Millones”, dão uma ideia do que ela pode fazer, em estilos variados mas com letras igualmente fortes.

O Matorral também surgiu em Santiago e está desde 2001 na ativa, acumulando cinco trabalhos de estúdio. No último deles, “Gabriel”, de 2015, a banda vai pelo caminho do experimentalismo, como se pode ouvir abaixo na música “Boleta de Cambio”. Assim como Él Mató a un Policía Motorizado, Bestia Bebé, Camila Moreno e Matorral, há várias outras bandas por desbravar e escutar em Argentina e Chile, dependendo da boa vontade de cada um em fazê-lo.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.