Colunistas Leandro Leal

O caçula de todos

Na Inglaterra, mais precisamente em Manchester, Liam é conhecido como Our Kid. Em sua terra natal, o caçula Gallagher é querido como se fosse o caçula de todos. Como caçula que se preze, faz das suas. No passado, quebrou quartos de hotel, usou drogas em quantidades cavalares e, mesmo hoje, fala e posta merda sem nenhum pudor, a respeito de tudo e de qualquer um. Entretanto, vindo do Caçula, uma figura rock n’ roll rara em tempos de excesso de treinamento para mídia e proporcional falta de espontaneidade, tudo é compreendido e perdoado.

     Após o fim do Beady Eye, Liam, que nunca escondeu ser um cara de banda, sempre que pode declara estar disposto a voltar com o Oasis. Faltava — ainda falta — Noel concordar:  estando muito bem à frente dos seus High Flying Birds, as chances dos irmãos voltarem a tocar juntos equivalem a um retorno dos conterrâneos Smiths.

     Cansado de esperar uma reconciliação pela qual ele mesmo não faz nada, Our Kid resolveu enfim tentar a sorte numa carreira solo. Este ano, após alguns no ostracismo, voltou à cena para anunciar o primeiro álbum com seu nome: As You Were, sua autoproclamada última chance de fazer música de verdade. “Se não for bem, eu desisto”. Dramático, como os caçulas costumam ser. (Sei disso porque eu mesmo sou um.)

     Nessa sua nova fase, Liam apresenta uma vulnerabilidade inédita, resumida nessa declaração e em outra, quando admitiu ter precisado de ajuda para compor as músicas do novo álbum. Não sendo “nenhum Bob Dylan” — palavras dele —, recorreu aos serviços do produtor Greg Kurstin, cuja assinatura está no hit “Hello”, da também britânica Adele. Essas falas, somadas a algumas entrevistas em que aparece quase incompreensível para além do forte sotaque, talvez lesado pelos excessos ou simplesmente desarticulado, compõe um personagem frágil e (ainda mais) carismático. Afeiçoado aos azarões, passei a torcer mais para Our Kid depois disso. Acredito não ter sido o único — caçulas em enrascadas, afinal, inspiram cuidados. Milhares de outros fãs já deviam gostar de As You Were antes mesmo do primeiro single sair.

     Para a nossa sorte — e do Liam — “Wall Of Glass” veio com tudo. Com punch, com refrão automático, com cara de sucesso. Os singles seguintes — “Chinatown”, “For What It’s Worth”, “Greedy Soul” e “Bold” — também tinham jeito de clássicos instantâneos, à altura das expectativas mais otimistas. Se as primeiras cinco faixas liberadas eram assim, as outras dez não poderiam ficar muito para trás, certo?

     A resposta veio na última sexta-feira, dia 6, quando o álbum chegou às lojas do Reino Unido e às plataformas digitais. Não, as outras dez faixas não ficavam nada atrás. O álbum é a cara do Caçula: é rock n’ roll direto, sincero, sem enrolação. Faixas pulsantes alternadas com baladas dignas do Oasis. É tudo o que um fã de rock — e não apenas do Liam ou do Oasis — poderia esperar. 

     Líder do TOP 20 britânico, vendendo mais do que os dezenove álbuns seguintes somados, As You Were garante: ainda vamos ouvir Our Kid, suas músicas e bravatas, por muito mais tempo. Foda-se o Noel, Liam. Nós, seus outros milhões de irmãos mais velhos, morremos de orgulho de você.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.