Colunistas Leandro Leal

O choque de Lou

Lou andava rebolando, dava chiliques, fazia cena, agia como uma verdadeira diva. Comportava-se de jeito bem diferente do que se esperava de um bom menino judeu de classe média. O modo como seus pais reagiram às tendências homossexuais apresentadas por ele, porém, foi bem de acordo com o script da época. No final dos anos 1950, quando ser gay era considerado doença, o tratamento indicado pelos médicos consistia em sessões de eletrochoques. Uma tortura a que os inocentes Reeds submeteram o filho para o que acreditavam ser seu próprio bem. Os muitos watts não foram capazes de impedir Lou de se sentir atraído por outros rapazes, mas, sem dúvida, o transformaram. Ele nunca esqueceria a experiência e, principalmente, a dor trazida por ela. Serviriam de futura inspiração para um choque muito maior, que, ao invés de sofrer, ele causaria.

Cerca de dez anos depois, o desajustado Lou Reed havia encontrado seu lugar no (sub)mundo, justamente na companhia de outros tipos difíceis de catalogar. Da parceria com o músico de vanguarda John Cale, vieram as melodias belas e inesperadas e as texturas sonoras intrigantes que, igualmente pretenciosas, embalariam com perfeição sua poesia. Do padrinho Andy Warhol, papa da cena artística alternativa da época, veio a imposição: teriam que aceitar a participação da cantora-modelo alemã Nico. Dele, também veio a icônica banana à qual o Velvet Underground sempre seria associado. Ao característico estilo pop art de Warhol, a fruta estampa a capa do álbum de estréia da banda, cujo título se resume ao seu nome acrescido do nome da protegida de Warhol — numa clara demonstração de que o grupo (leia-se Lou, avesso a dividir os holofotes) não a considerava parte, apenas a tolerava.

A contragosto ou não, a voz de Nico é um dos elementos-chave do álbum, bela e estranha como ele, com seu sotaque alemão a emoldurar os versos de “I’ll Be Your Mirror”, “Femme Fatale” e “All Tomorrow Parties” – uma combinação tão perfeita, que, ironicamente, faz as músicas parecerem ter sido compostas para ela. As outras faixas, interpretadas no anti-canto do próprio letrista, são nada menos que antológicas.

Nos anos 1960, período em que as drogas exerceram o importante papel de argamassa da contracultura, outras músicas já haviam abordado o tema, mas nunca antes como aquelas. As letras de Lou não eram repletas de metáforas coloridas, não tratavam de lúdicas viagens lisérgicas. Falavam do contato com o traficante (“Waiting For The Man”), da paranoia (“Sunday Morning”) e do êxtase orgásmico (“Heroin”), aspectos do consumo de drogas conhecidos por muitos, mas que ele, além da cátedra, tinha o talento e a sensibilidade necessários para converter em grande poesia. Não há, aliás, outra definição além desta para versos como os de “Venus In Furs”, embalados por um incômodo violino e pela percussão precisa de Mo Tucker.

Lançado há exatos cinquenta anos, à época, “Velvet Underground And Nico” foi muito comentado e pouco comprado. Embora comparado em importância ao “Sgt. Pepper” dos Beatles (que saiu no mesmo ano, poucos meses depois), o “disco da banana” nunca teve um desempenho comercial comparável. Mas até isso ajudou a compor sua mítica. Anos depois, Brian Eno diria sua famosa frase a respeito do álbum: “Poucos compraram o disco, mas todos que compraram formaram bandas.” Falava dele mesmo e do seu Roxy Music e de tantas outras dezenas de bandas influenciadas pela obra, sem a qual, é seguro dizer, o rock alternativo não seria o que é. A partir dele, foram apontados caminhos líricos e instrumentais até então impensados, cujos ecos se ouvem em bandas como Sonic Youth, Jesus And Mary Chain, My Bloody Valentine.

Em tempos em que o que resta do rock parece impregnado de excesso de fofura estéril, é bom lembrar que ele já foi muito maior, muito mais inteligente, muito mais transgressor. Ele já foi “The Velvet Underground And Nico”.

O Velvet Underground. E também a Nico

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.