Kurt, em seus eternos 27
Colunistas Leandro Leal

O ídolo caçula

Sábado de carnaval, e aqui estou eu ouvindo o “Nevermind”, de cabo a rabo. Não sou desses roqueiros que não gostam de carnaval, ao contrário: logo mais, devo ir a um bloco. Tudo bem, ele se chama “77” e toca clássicos do punk (daí o nome) em ritmo de marchinha, mas não deixa de ser um bloco. O que me levou a ouvir o clássico álbum do Nirvana foram as memórias trazidas pela notícia de que, estes dias, estivesse vivo, Kurt Cobain faria 50 anos.

 

Saber disto me transportou ao ano de 1994, ao velho quarto na casa dos meus pais. Numa noite de abril, se não me engano (não vou conferir no Google), estava lendo um gibi qualquer, com a TV ligada. Não prestava nenhuma atenção às notícias vindas do Jornal da Globo, até que uma se fez impossível de ignorar. Kurt fora encontrado morto no porão de sua casa, vítima de um tiro de espingarda dado por ele mesmo.

Vítima, na verdade, de muito mais. Do despreparo emocional para lidar com a projeção repentina dos porões da vida (como aquele onde seu corpo fora achado) ao estrelato mundial. Da completa pobreza em que fora criado aos milhões que enchiam sua conta bancária e esvaziavam sua vida de significado. Da simples vontade de fazer rock transformada na obrigação de fazer sucesso. Das expectativas do show business que o forçavam a ser algo que ele não era e não queria ser. De tudo o que o conduzira ao vício, do vício que acentuara sua depressão, da depressão que o fizera enfiar a espingarda na boca e ser vítima, em última instância, de si mesmo.

Me chocou saber que Kurt tinha só vinte e sete anos, idade fatal de tantos astros antes dele, mas que, para mim, remetia mais à minha própria. Dali a meses, eu faria dezessete. Com apenas dez anos a mais que eu, Kurt já havia feito tanto, vivido tanto e, por fim, morrido a morte dos intensos.

Já era tarde da noite, mas eu, já sem sono, passaria a noite toda pensando no destino do líder do Nirvana, em como a vida pode ser, ao mesmo tempo, tão generosa e tão cruel. Voltei a pensar nisso tudo ao saber que Kurt teria feito cinquenta dia desses. Hoje, eu perto dos quarenta, ele com eternos vinte e sete. Converteu-se em meu ídolo caçula, parafraseando Camus ao se referir ao pai, morto com menos idade do que ele tinha ao descobrir seu túmulo.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.