Colunistas João Botelho

O que é ser alternativo hoje?

Sou do tempo em que as palavras “alternativo” e “independente” significavam para o mundo do rock o que elas significam de forma geral. Ou seja, faziam referência a artistas cuja produção e carreira seguiam por rotas alternativas ou independentes em relação ao mainstream.

Hoje, nenhuma dessas definições faz mais sentido. Isso não se deve a que não existam mais artistas com trajetórias alternativas ou independentes no rock, produzindo o que queiram, lançando essas produções por conta própria ou por selos caseiros e fazendo o maior número possível de shows, quase sempre em lugares pequenos, para sobreviver. E sim porque o uso foi banalizado, seja como rock alternativo ou como indie rock.

Não importa que, musicalmente falando, essas duas categorias sempre foram vazias de conteúdo. Afinal, elas se referem a uma forma de encarar o rock, e não ao que se produz. Por outro lado, elas serviam para agrupar artistas que tinham em comum a trajetória independente dos grandes selos musicais.

Esses artistas, porém, foram sendo cada vez mais cobiçados pelas gravadoras e pela mídia, conforme sua música saía do gueto e atraía as massas (é lugar comum dizer que o Nirvana teve papel fundamental, e involuntário, nessa transição). A situação chegou a tal ponto que, hoje, é cool ser alternativo, deixando o lado sofrido da coisa para trás, ou só para as bandas iniciantes ou mais experimentais.

Como resultado, se já era difícil saber o que é rock alternativo ou indie rock, a tarefa se tornou quase impossível hoje. Qualquer artista em início, meio ou fim de carreira pode ser rotulada/do como tal. Bandas do calibre de Green Day e The Offspring, que atraem multidões e faturam alto, ainda são classificadas assim.

As soluções foram incorporar adjetivos ou tentar impor nichos que, originalmente, nunca existiram. Como exemplo, a “Music Choice”, um provedor de conteúdo musical por assinatura, oferece três canais para tentar abranger as possibilidades de variação, “alternative”, “adult alternative” e “indie”. Adianto a quem se interessar que a tarefa de tentar buscar padrões em cada um e, por consequência, diferenças entre os três é árdua.

Alguém, à esta altura, já deve estar se perguntando: “O que você sugere, então?”. Se eu tivesse a resposta, não daria para vocês aqui e a venderia bem caro para algum fodão da indústria musical. O máximo que posso fazer para ajudar é me manter atento e aberto ao novo e dar meus pitacos aqui e ali.

Aí vai um deles. Ser alternativo hoje é ser nada e tudo ao mesmo tempo. “Puxa, como assim?!” Um artista que é tão difícil de rotular, que incorpora tantas referências à sua música, que só resta defini-la/lo como indie. “Ah, mas isso não é world music?” Não! Para começar, world music não é rock, ao menos, não para mim, é música regional de diferentes lugares do mundo.

“Dá algum exemplo, então.” Um que me vem à cabeça no momento, inclusive porque vi um show da banda há poucos dias, é o Foxygen. Cara, a música deles é uma bagunça só, mesclando referências a tal ponto que, se você faz uma busca rápida na internet, vai encontrar definições tão conflitantes e, às vezes, esdrúxulas quanto rock de garagem e, acreditem, pop barroco (quê raios é pop barroco?!).

Se esses rótulos só te deixaram mais perdida/do do que já estava, é simples de resolver. Chama de indie. Captou?

Aproveite para escutar abaixo duas das melhores faixas do último álbum do Foxygen e tirar suas próprias conclusões.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.