Poucos e bons - Parte 1: Lee Ranaldo - Bem Rock
Colunistas Leandro Leal

Poucos e bons – Parte 1: Lee Ranaldo

Lee Ranaldo, esse nosso vizinho

No começo dos anos 2000, assim que meu salário passou a permitir, me tornei um frequentador assíduo de shows. Mesmo sem meu contracheque ser dos mais polpudos, os tempos de inflação mais camarada facilitavam a tarefa de transformá-lo em vários ingressos. O que sobrava dos meus rendimentos líquidos virava aquele outro, que pode te complicar no bafômetro. Esses mais de 15 anos coincidiram com a passagem de bandas de todos os tamanhos e gêneros (dentro do rock, evidentemente) pelo país e com algumas viagens para o exterior. Acompanhado de namoradas e amigos, estive presente em dezenas shows. Talvez a gente até tenha se esbarrando em alguns.     

    Mas o ano que acaba foi diferente. Se nos anteriores eu perdi a conta, sei exatamente a quantos shows fui em 2017: apenas quatro. É, só quatro. Parte da culpa é dos preços absurdos dos ingressos, é verdade. Porém, lembrando que dois desses ingressos foram bem caros e que o calendário generoso de São Paulo oferece opções interessantes mesmo para quem não pode ou não quer gastar tanto, admito: a maior culpada pela minha pouca assiduidade é mesmo a preguiça, maior a cada ano. Lembrar que este ano fiz 40 explica muita coisa.

    Não é bem uma reclamação, é mais uma constatação. Sabe o lugar-comum dos poucos e bons? Aplica-se muito bem aos concertos que assisti em 2017. Só showzão. Como foram poucos, e o primeiro deles aconteceu apenas em outubro, lembro bem de cada um. Por ter bem viva a memória de cada um, para encerrar o ano, decidi fazer pequenos textos, mistos de resenha e crônica, para cada um dos shows. Certeza que a gente se esbarrou em algum deles.

    O primeiro show da série é justamente o último que vi: Lee Ranaldo no Centro Cultural Vergueiro, na última terça, 12 de dezembro.

Fundador e guitarrista do Sonic Youth, Lee Ranaldo é uma lenda do rock alternativo. Vindo a São Paulo praticamente de três em três meses, Lee Ranaldo é também um paulistano honorário. Vira e mexe, ouvia a notícia de um novo show dele num Sesc qualquer, mas nunca a tempo de comprar um ingresso — em shows desse tipo, baratos que dá gosto, se esgotam em minutos. Como o último tinha sido em agosto, me surpreendi ao saber que haveria outro agora, em dezembro. A tal frequência quase trimestral não era, afinal, exagero.

    Desta vez, fui rápido o suficiente para garantir um ingresso. Consegui até um autógrafo e uma foto com ele, veja só. Procurando mais informações sobre o show, descobri que, antes dele, haveria o lançamento de Jrnls80s, livro com relatos dos bastidores do Sonic Youth na década de 1980. Como muitos outros, fui lá antes do show e garanti o livro, a foto e o autógrafo. (Lee ainda distribuiria dezenas de outros, ultrapassando as centenas, sempre se esforçando para sorrir.) Passados os autógrafos, veio show.

    Recheado de distorções, providenciadas por múltiplos pedais, e de estranheza, incrementada por uma haste de violino e sinos, o som também tinha a sua assinatura. Lee tocou seu violão sozinho, acompanhado apenas da pequena plateia ao redor, envolto por gelo seco, luzes e decibéis. Nas vezes em que se dirigiu ao público, lembrou de quando havia estado por aqui em setembro de 2016 (sim, ele sempre está por aqui!) e tinha ganhado uma nota de 50 reais em que estava escrito “Fora, Temer” — procurei no Instagram dele e descobri que, na verdade, tratava-se de um carimbo com a palavra “Golpista” em que o “o” era substituído pelo logotipo da Globo.

    Se alguém esperava ouvir alguma coisa do Sonic Youth, se decepcionou. Quem, como eu, gosta da carreira solo desse senhor paulistano saiu bem satisfeito. Faça o favor de voltar logo, vizinho. Prometo ir visitá-lo de novo. 

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.