Colunistas Leandro Leal

Poucos e bons – Parte 2: Arcade Fire

Céu aberto no Anhembi

No começo dos anos 2000, assim que meu salário passou a permitir, me tornei um frequentador assíduo de shows. Mesmo sem meu contracheque ser dos mais polpudos, os tempos de inflação mais camarada facilitavam a tarefa de transformá-lo em vários ingressos. O que sobrava dos meus rendimentos líquidos virava aquele outro, que pode te complicar no bafômetro. Esses mais de 15 anos coincidiram com a passagem de bandas de todos os tamanhos e gêneros (dentro do rock, evidentemente) pelo país e com algumas viagens para o exterior. Acompanhado de namoradas e amigos, estive presente em dezenas shows. Talvez a gente até tenha se esbarrando em alguns.     

    Mas o ano que acaba foi diferente. Se nos anteriores eu perdi a conta, sei exatamente a quantos shows fui em 2017: apenas quatro. É, só quatro. Parte da culpa é dos preços absurdos dos ingressos, é verdade. Porém, lembrando que dois desses ingressos foram bem caros e que o calendário generoso de São Paulo oferece opções interessantes mesmo para quem não pode ou não quer gastar tanto, admito: a maior culpada pela minha pouca assiduidade é mesmo a preguiça, maior a cada ano. Lembrar que este ano fiz 40 explica muita coisa.

    Não é bem uma reclamação, é mais uma constatação. Sabe o lugar-comum dos poucos e bons? Aplica-se muito bem aos concertos que assisti em 2017. Só showzão. Como foram poucos, e o primeiro deles aconteceu apenas em outubro, lembro bem de cada um. Por ter bem viva a memória de cada um, para encerrar o ano, decidi fazer pequenos textos, mistos de resenha e crônica, para cada um dos shows. Certeza que a gente se esbarrou em algum deles.

    O segundo show da série é o penúltimo que vi: Arcade Fire, 9 de dezembro, no Sambódromo do Anhembi.

Assisti ao Arcade Fire pela primeira vez em 2005, quando a banda se apresentou ao lado do Strokes, da MIA e do Kings of Leon. Para ser bem franco, precisei consultar a internet para confirmar essas duas últimas atrações. Minhas lembranças desse festival foram bastante prejudicadas pela cerveja e pelo péssimo som do local — o odioso Anhembi, aonde voltaria anos depois, muito contrariado, para ver o Arctic Monkeys. Depois do show morno do pessoal do Alex Turner, jurei a mim mesmo que só voltaria lá em caso de uma reunião dos Smiths.

    Nove anos depois, eu e o Arcade Fire quase nos reencontramos. Em 2014, trouxeram a turnê do álbum Reflektor ao Lollapalooza. Mesmo estando no festival, eu não vi o show. Preferi o do New Order, que aconteceria em outro palco no mesmo horário, e me arrependi um bocado. Achei a  apresentação dos ingleses sem graça, enquanto a dos canadenses recebeu elogios de todo mundo que viu.

    Este ano eu teria mais uma oportunidade de ver um show decente do Arcade Fire. De tão empolgado, só me dei conta de que o palco seria novamente o Anhembi muito depois de ter comprado. Lamentei ainda mais quando, diante das vendas decepcionantes, a organização baixou os preços dos ingressos pela metade. Ótimo para quem ainda não tinha comprado, não tão bom para quem quis garantir o ingresso assim que começaram as vendas — meu caso. Mas ainda podia melhorar: só na semana do evento descobri que a tal “pista” para a qual tinha ingresso seria na verdade uma arquibancada, e que à pista de fato corresponderia a famigerada área VIP.

    Some o fator Anhembi a essa pista mandrake, e imagine meu humor no dia do show. Essa disposição me acompanhou durante todo o show, que, confesso, assisti procurando defeito. Porém o espetáculo, de proporções diminuídas devido à baixa procura, foi bem melhor que eu esperava. De onde assisti, da tal pista-arquibancada, a visão do palco era ótima, e ainda tinha a vantagem de estar perto do banheiro e do bar — um convenientemente perto do outro. Já que dava para beber, por que não? Só três cervejas, muito menos do que bebi na primeira passagem da banda pelo Brasil, nada que tenha comprometido meu julgamento ou minhas lembranças do show.

    O que me lembro de ver e ouvir foi uma banda muito profissional, tocando com tesão — como diria o Humberto Gessinger —, com um repertório bem ao gosto da plateia. Tudo o que qualquer fã queria ouvir estava ali, de “Lies” a “Wake Up” — primeiros sucessos da banda, tocados no começo e no fim da apresentação —, passando por “The Suburbs”, “No Cars Go” e até pela linda e menos óbvia “Haiti”. Aliás, que cantora a Régine Chassagne, não?

    Não vou entrar em detalhes de análise crítica porque essa não é a intenção e, tantos dias depois, você já deve ter lido diversas resenhas. Basta dizer que foi um belo show. Nada que se comparasse a uma volta dos Smiths, mas valeu a pena ir ao Anhembi.      

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.