Primal Scream: um show de ausências  - Bem Rock
Colunistas Leandro Leal

Primal Scream: um show de ausências 

Gosto do Primal Scream. Não é uma das minhas bandas preferidas, mas gosto o suficiente para ver mais de uma vez, se as condições do show forem: lugar pequeno, perto do metrô e ingresso por um preço honesto. Como a volta dos escoceses ao Brasil se enquadrava em todos esses pré-requisitos, o indie véio e preguiçoso aqui não teve alternativa a não ser ir. E é só por isso que não me arrependo.

Ainda no bar ao lado do Tropical Butantã (espaço, pelo nome e pelo que ouvi, originalmente dedicado ao forró), antes de entrar, soube que a banda viria desfalcada de Mani. Como não os acompanho, não sabia que o também baixista do Stone Roses não se apresentava mais com eles. No seu lugar, agora havia uma baixista. Enquanto tomava a única cerveja da noite, pensei: “Ok. O Mani é foda, mas não é a alma da banda”.

Quando o show começou, percebi que, ainda que o baixista não fosse a alma da banda, ele parecia ter ficado com ela. Numa formação resumida a guitarra (Andrew Innes), teclados e bases pré-gravadas (Martin Duffy) e bateria (Darrin Mooney) acompanhando Bobby Gillespie, o Primal Scream parecia, mais que uma versão econômica, um cover de si mesmo. Músicas sem a mesma pegada de shows anteriores, a banda longe do mesmo espírito. A baixista atual também não estava lá. Não conheço a moça, mas não acredito que sua presença mudaria a impressão final sobre o show, minha e daqueles com quem falei. Ali, faltava mais que ela.

Parecendo ter tomado todas que evitei, Bobby Gillespie era mais uma ausência. Não foram poucas as vezes em que o vocalista parecia estar em outro lugar. O repertório era correto, o próprio desempenho vocal dele era satisfatório, mas “correto” e “satisfatório” não são os melhores adjetivos para um show de rock. O ótimo guitarrista Andrew Innes sabia disso e se esforçava, tentando com seus solos suprir todas as faltas da noite, o que as bases pré-gravadas estavam longe de conseguir fazer com o baixo.

Nas músicas do Screamadelica, a quantidade de ausências foi ainda maior. Onde estavam os instrumentos de sopro e o coral de backing vocals, que acompanharam a banda em 2011, quando veio ao Brasil na turnê desse álbum? Músicas como “Come Together” dependem demais dessas participações, ainda que, sob o comando de Gillespie, a plateia tenha feito sua parte, cantando junto.

O fim do show do Primal Scream veio com “Moving On Up”, seu maior sucesso. Uma música grandiosa, um hino capaz de levantar estádios e defuntos. Quer dizer, isso quando executada como no show de 2011. Ontem, só deu pena. Uma versão xoxa, combalida, que a gente cantava junto quase por obrigação. Mal acabou, eu já estava saindo. Pelo menos, acabou a tempo de pegar o metrô.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.