Colunistas João Botelho

Quando a criatura alcança o criador, ou o criador alcança a criatura

Ter uma banda paralela àquela que te dá o sustento é, às vezes, uma via de escape para o artista que sente a necessidade de enveredar por outros caminhos musicais, seja por qual motivo for. Pode ser porque anda insatisfeito na sua banda original, tem outras influências e preferências musicais que gostaria de expressar, ou simplesmente quer dar um tempo para arejar as ideias.

O que me interessa aqui, na verdade, é que alguns desses projetos paralelos deram tão certo que chegaram perto, em termos de qualidade musical, não tanto de sucesso comercial, dos criadores que os originaram. Entre os vários casos, mais ou menos conhecidos, quatro me são particularmente caros: Sebadoh, Looper, The Mars Volta e Jack White.

Começando pelo fim, Jack White é um caso peculiar. Seu projeto solo veio depois, e não em paralelo, à banda que lhe deu fama. Com ele, então, foi o criador que se seguiu à criatura. Seja como for, todo indie que já se entendia como gente nos anos 2000 ouviu The White Stripes. Formada por Jack e Meg, ambos White, a banda foi tão bem sucedida que seu hino “Seven Nation Army” continua embalando torcidas em estádios de futebol ao redor do mundo.

Ao mesmo tempo, Jack White nunca deixou de ter outros projetos, como Raconteurs e The Dead Weather, até seu momento atual de carreira solo. Se nos atemos ao White Stripes e ao Jack White de hoje, a excelência musical se mantém intacta. (Que o digam os que viram o show do Jack White no Lollapalooza Brasil de 2015).

Tudo bem, os mais maldosos dirão que Jack White já estava em carreira solo no White Stripes e que a banda era ele, mas a maldade não muda o fato de que é uma tarefa árdua responder a do que, musicalmente falando, você gosta mais: do Jack com a Meg ou do Jack sem a Meg.

Tratemos agora do Sebadoh, a banda do baixista do Dinosaur Jr Lou Barlow, e voltemos um pouco mais no tempo, para os anos 1980, quando ambas surgiram. É certo que o Sebadoh não seria o que é se o J Mascis não tivesse chutado temporariamente o Lou Barlow do Dinosaur Jr, que havia surgido um pouco antes. Mas é igualmente certo que as duas bandas estão entre as mais influentes da cena alternativa nos Estados Unidos, juntamente com outras tantas que foram surgindo ao mesmo tempo ou depois, como Sonic Youth, Pavement e Guided by Voices.

Se você gosta de todas essas bandas, não conhece o Sebadoh e quer uma dica do que ouvir deles, busque o “Bakesale”, de 1994. Eu agarantcho!

Mudando para um limbo em relação a estilo musical, porque é difícil expressar em palavras o que as bandas de Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodríguez-López são, temos The Mars Volta, que, para os dois músicos, foi o que fizeram de mais duradouro (foram seis álbuns) no longo hiato da sua parceria anterior no At the Drive-In.

As duas bandas têm um pé no punk e outro em El Paso, na fronteira do Texas com o México, mas o Mars Volta passeia pelo rock progressivo, com suas músicas longas e cheias de variação rítmica. As apresentações ao vivo eram outro ponto forte, puxadas pelo ritmo frenético e, às vezes, arriscado do vocalista Cedric Bixler-Zavala.

Se até aqui criador e criatura preservam traços em comum, não é o caso do Looper, uma cria do Belle and Sebastian gestada por seu então baixista Stuart David nos anos 1990. O que o Looper faz é experimentalismo eletrônico, bem diferente do indie fofo do B&S. As/os fãs de cultura pop já devem, sabendo ou não, ter se deparado com alguma música do Looper, que serviu de trilha para de filmes a videojogos, passando por propagandas e séries, sobretudo com “Mondo ’77”, que você pode conferir abaixo.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.