Colunistas João Botelho

Saudosismo, sim, mas com moderação

ashcroft_editada1Ele, o saudosismo, seja do que for, está tão em voga hoje que virou motivo de piada na temporada atual de South Park, em que, com o perdão do spoiler, se transforma em uma forma de entorpecer e enganar as pessoas sobre problemas do presente.

Não estou imune ao saudosismo, claro, mas sempre fui cético em relação a, por exemplo, reuniões de bandas que passaram anos sem tocar juntas ou, em alguns casos, até sem se falar. Bandas de qualidade continuam aparecendo aos montes, desde que estejamos abertos a dar espaço a elas, o que fica mais difícil quando os dinossauros do passado não querem largar o osso.

Ao mesmo tempo, o ser humano é incansável em me fazer não acreditar nele. Então, também duvido sempre que artistas, já com uma tendência a ser mais egocêntricos do que nós mortais, estejam dispostos a superar diferenças em nome de algo maior que não seja unicamente o recheio das suas contas bancárias.

Agora, nada disso significa que uma banda não possa se juntar de novo e continuar produzindo música de qualidade, para além de uma autorreferência interminável ao que foi no passado. O Blur é o primeiro caso nesse sentido que me vem à cabeça.

Outros dois casos, em parte, são Richard Ashcroft e Johnny Marr. São em parte não porque a música que produziram nos seus últimos álbuns não mereça, e muito, ser ouvida, e sim porque a volta dos dois à ativa não significou a reunião das bandas que os tornaram famosos, respectivamente, The Verve e The Smiths.

Tive a chance de ver o Johnny Marr em um Lollapalooza Brasil e fiquei muito bem impressionado, assim como fiquei com os dois álbuns que ele lançou nos últimos anos. Há alguns dias, pude ver o Richard Ashcroft no teatro Caupolicán, em Santiago. Para quem gosta do Verve, como eu, foi uma oportunidade única, inclusive porque a turnê sul-americana do ex-vocalista da banda britânica não passou pelo Brasil.

E que oportunidade! Poder vê-lo ao vivo cantando “Sonnet” foi algo que superou todas as minhas expectativas. Não quero parecer piegas, mas realmente faria tudo que fosse necessário e pagaria o dinheiro que fosse para estar onde estava, um teatro decadente do centro de Santiago, naquele momento. (E para melhorar, como comprei um assento que não existia, fui colocado em um lugar bem melhor e mais próximo do palco).

Engana-se quem acha que o show foi só Verve e, por consequência, o saudosismo dos tempos áureos da banda. O álbum novo do Ashcroft, “These People”, faz jus e atualiza em alguma medida o legado do Verve, salvo poucas exceções. Dele, foram pinçados alguns dos melhores momentos para compor a apresentação com outras músicas da carreira solo de Ashcroft e clássicos do Verve.

Como era de se esperar, o show terminou com “Bittersweet Symphony”. Ao contrário do que também era de se esperar, ela não foi interpretada com desdém por um Ashcroft já cansado do seu maior sucesso à frente do Verve. Nada disso! Foi um desfecho cheio de vibração, digno de um artista que, ao mesmo tempo em que explora seu passado, não se limita a ele e o valoriza com uma produção atual de qualidade.

Veja as interpretações de “Sonnet” e “Bittersweet Symphony” no teatro Caupolicán.

Escute duas músicas do álbum de Richard Ashcroft que honram o legado do Verve.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.