Colunistas Xandão

Se minha rebeldia foi o rock, qual será a do meu filho?

Cena do clipe de Paradise, do Coldplay

Despacito, Marron 5, Coldplay e até Ludmilla. Música e artistas que entraram no foco de atenção de meu filho. Ele diz que gosta de rock e realmente curte bastante algumas músicas que coloco para ele. Até se arrisca a cantar Back in Black, do AC/DC, e Aces High, do Iron Maiden. Mas também vai para outros estilos.

O que me fez lembrar de minha adolescência, que já ficou para trás há bastante tempo. Então nem todas as memórias são tão precisas. Mas, com relação à música, lembro de que começar a ouvir alguns tipos de rock foi uma forma de rompimento com meus pais, principalmente meu pai, mais ligado às orquestras e à tal música clássica.

Era aquele ato de rebeldia, aquela coisa de jovem. Mas aí o tempo vai passando, virei pai e, agora, fico com aquela dúvida: se eu gosto de rock, será que meu filho vai fazer esse rompimento musical comigo? E se fizer, o que ele vai escutar? Um Despacito novo a cada verão?

Há algumas semanas estive no show do Far From Alaska, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Estavam lançando por aqui o segundo álbum do grupo, Unlikely. Antes da apresentação, fui comer alguma coisa e notei, na fila da lanchonete, um senhor ao lado de um adolescente.

Ele aparentava ter uns 50 anos – não sou bom nessas coisas, enquanto o jovem parecia ter seus 15. Eu os encontrei novamente depois já na plateia, pouco antes de o show começar. Havia mais um adolescente com eles, talvez um pouco mais velho do que o primeiro.

Fiquei curioso com a cena, mas como o show estava para começar não os abordei. Será que eram pai e filhos? Ou até avô? Como tenho 39 anos de diferença para meu filho, não duvido nada que, quando ele for adolescente, as pessoas fiquem na dúvida se sou pai ou avô dele.

A questão é que aquele senhor não me pareceu estar ali para curtir o Far From Alaska, mas sim acompanhar os dois adolescentes. Como roqueiro que sou, gostei daquela atitude. Mas também me gerou a dúvida: e se meu filho, quando tiver uns 15 anos, me pedir para ir a um show de outro estilo musical?

Confesso que fico tenso em pensar no moleque me pedindo para ir a alguma apresentação desses funks com algum MC Zezinho da vida. E o ‘desses funks com algum MC Zezinho’ é proposital para tentar mostrar o que penso e qual meu entrosamento com o tal gênero musical.

Por enquanto, o que tenho tentado fazer pela educação musical dele é trabalhar com inclusão, e não exclusão. E deixar claro o que eu gosto ou não gosto. Voltando ao Despacito, eu já disse que não gosto, mas que não me incomodo de ele escutar. E sempre tentamos, minha mulher e eu, fazê-lo conhecer o maior número possível de estilos – rock, jazz, MPB, samba, orquestras, pop etc etc etc.

Mas há limites. Aqueles tipos de música com o rótulo ‘universitário’, seja forró, sertanejo, pagode ou uma mistura disso tudo, nunca mostramos. O mesmo para esse funk que deturpou o original. E aí volto à questão da rebeldia, do rompimento e de levar o filho a um show de algo que eu realmente não goste.

E se ele pedir para ir a um show que esteja fora desse menu musical que estamos apresentando a ele? Não sei como vou agir no futuro, mas hoje minha resposta seria não. Eu não vou. Enquanto isso, vou torcendo e tentando trazer ele para o meu lado. Pelo menos no gosto musical.

Sobre o autor

Xandão

Xandão é zagueiro profissional, roqueiro e jornalista nas horas vagas. Mesmo que essas horas vagas ocupem de 9 a 10 horas por dia em trabalhos por aí, tipo Rádio Globo, UOL, R7 e MSN.