Colunistas Leandro Leal

Sessão da Tarde com Morrissey

Morrissey: sem topete e sem graça

Quando assistia à Sessão da Tarde, nos anos 80 e 90, a matinê cinematográfica da Globo era sinônimo de diversão infanto-juvenil. Depois da reprise de alguma novela, passavam clássicos que realmente valiam a pena ver de novo. Engraçados ou dramáticos, inteligentes ou bobos, mas sempre divertidos, títulos como “O Campeão”, “Namorada de Aluguel”, “Conta Comigo”, “Lagoa Azul” e “Digby – O Maior Cão do Mundo” ajudaram a formar o imaginário de muitas gerações — inclusive das que não os viram nessa época. Hoje, infelizmente, a única coisa que a sessão mantém dos seus tempos áureos é o nome. Das vezes em que passei pela Globo no horário, na vã esperança de reencontrar Ferris Bueller, vi trechos de filmes tão sem graça que, mais do que ser difícil acreditar que alguém assista, me pergunto como bancaram a produção de roteiros como aqueles. Se os antecessores eram memoráveis, da atual programação da Sessão da Tarde nem o elenco se lembra.

Antes se dizia que um filme era digno de Sessão da Tarde por ser leve, bom entretenimento sem compromisso, perfeito para ver debaixo do cobertor, no sofá, na preguiça. Depois de assistir a “England Is Mine”, acho que o rótulo precisa ser redefinido. A cinebiografia do Morrissey poderia passar tranquilamente na Sessão da Tarde, mas como parte da programação de 2017. O ex-vocalista dos Smiths merecia, no mínimo, um filme como “A Garota de Rosa Schocking” e “Curtindo a Vida Adoidado”, clássicos dos anos 1980 e da antiga Sessão da Tarde com músicas de sua antiga banda nas trilhas sonoras.

Nessa versão romanceada da juventude do jovem Steven Patrick, vemos a conhecida alma atormentada mais à vontade entre livros do que entre pessoas, as quais julga inferiores ao seu gênio incompreendido. Acompanhamos seu tédio diante da cena musical de Manchester nos anos 1970, escrevendo críticas ácidas em forma de cartas enviadas ao NME (New Musical Express). Presenciamos uma amiga, depois de muito incentivá-lo a fazer algo maior, desistir dele. Então assistimos à sua própria desistência, aceitando a rotina maçante de um trabalho burocrático. Somos testemunhas de suas primeiras investidas na música, na banda Nosebleeds, só possíveis graças à insistência de outra amiga, artista como ele.  A história cobre a vida do bardo até o encontro com aquele que viria a ser seu grande parceiro, o guitarrista Johnny Marr.

Apesar de em todo o filme não se ouvir uma única música dos Smiths, esta está longe de ser sua maior ausência. (É até compreensível, já que a cinebiografia narra eventos anteriores à banda.) O que falta em “England Is Mine”, de verdade, é o mesmo que sobra nas músicas de Morrissey: pulsação, criatividade. Descontadas as licenças poéticas, a história é mais ou menos aquela mesmo, mas é contada por meio de uma sucessão de lugares-comuns, dos personagens aos diálogos. A amizade do futuro ídolo pop com a menina que o incentiva no começo, por exemplo, faz lembrar a relação de Molly Ringwald com Jon Cryer, no já citado “A Garota de Rosa Schocking” — um clichê surgido ali e deste então revisitado à exaustão. O próprio protagonista, em que pese a atuação competente de Jack Lowden, é caricato demais. Sem contar o chefe, saído diretamente de um programa de humor tipo Zorra Total, e os colegas da repartição, jogando bolinhas de papel no poeta como se estivessem na escola. Ah, claro, a bonitinha do escritório se interessa pelo misterioso Steven e os dois se envolvem numa relação de amor e ódio, que só não acaba em beijos, bem, porque licença poética tem limite. 

Variando em registro da comédia ao drama adolescente, porém sempre morno, “England Is Mine” também tem seus pontos positivos, mas eles se se restringem a aspectos técnicos, basicamente à direção de arte e à fotografia. Dá para elogiar a paleta de cores, chuvosa como a vida do personagem principal, e os belos planos de Manchester — chegando no fim, vemos uma interessante sucessão de quadros de cenas cotidianas, representando o tédio e o passar dos dias. E é só nisso que o filme se distancia da irrelevância da atual Sessão da Tarde.

Mesmo com toda a boa vontade do mundo, não dá para chegar ao fim de “England Is Mine” sem a impressão de foram quase duas horas desperdiçadas. Só não cito o Chaves e digo que melhor teria sido ver o filme do Pelé, porque li que a cinebiografia do Rei também é fraquinha. Pelo jeito, está na moda fazer tributos mequetrefes aos grandes ídolos.

 

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.