Colunistas Juliano Barreto

Sgt. Jagger’s Stones Club Band

Uma análise tardia, meio demorada e necessária do “Sgt. Pepper’s” gravado pelos Rolling Stones

stones_editada1Quando Nelson Piquet foi provocado a opinar na discussão sobre quem havia sido o melhor brasileiro da F-1, ele não relembrou suas vitórias épicas ou ultrapassagens impossíveis para afirmar que havia sido melhor que Ayrton Senna. Quem foi melhor? Piquet ou Senna? “Bom… eu estou vivo”, respondeu nosso malvado preferido.

Se cairmos na tentação de alinhar Beatles e Rolling Stones no grid, usar o argumento de Piquet daria uma vitória facílima
para os Stones. Nenhuma outra banda manteve-se no topo do mundo por tanto tempo. Mesmo arredondando para cima, não dá para comparar os dez anos de Lennon/McCartney com os 50 anos, arredondando para baixo, de Jagger/Richards.

Como também não dá para comparar a evolução das duas bandas durante suas trajetórias. Uma vive desde 1965 desavergonhadamente criando variações de “Satisfaction”, a outra precisou de menos de uma década para criar e demolir um fenômeno “mais popular que Jesus Cristo” duas ou três vezes apenas pelo desafio de fazer algo novo e melhor sempre.

Nos Beatles, essa constante busca pela superação nunca foi tão bem traduzida quanto no lançamento do oitavo álbum da banda: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, de 1967.

Isso todo mundo sabe.

O que ficou empoeirado e opaco na história é que “Sgt. Pepper’s” também foi o motivo que levou os Stones a se segurarem com tanta convicção a uma fórmula tão conservadora por décadas. Foi só ao tentar imitar os Beatles, que os Stones decidiram definitivamente que seriam cada vez mais os Stones.

Explico. Foi se inspirando no álbum conceitual psicodélico dos Beatles, que Mick e Keith decidiram embarcar numa experiência que chegaria às lojas ainda naquele mesmo 1967 com o nome de “Their Satanic Majesties Request”.

Esse sexto álbum dos Stones já provocaria polêmica de qualquer jeito apenas pelo seu título, que colocava o diabo no meio da tradicional frase “Her Britannic Majesty requests and requires …”, dos passaportes britânicos. Ainda assim, o nome do disco foi o de menos. “Satanic Majesties” foi a tentativa aberta e declarada dos Stones de reproduzir “Sgt. Pepper’s”. Foi o momento em que a comparação entre Beatles e Stones tornou-se irresistível, inevitável. Algo como ter Piquet e Senna na mesma pista, com carros iguais.

E ao girar a vitrola, tudo de “Sgt. Pepper’s” podia ser reconhecido “na cópia”. Vocal no megafone, referências psicodélicas, faixas amarradas umas nas outras, um conceito muito louco na capa e encarte… Algumas edições do disco tinha até uma capa onde era possível ver a foto dos quatro Beatles meio escondas entre flores e cores hippongas. Estava tudo ali, menos a surpresa e a originalidade dos Beatles.

No calor do momento, ninguém teve dúvidas de que “Sgt. Peppers” era melhor que “Satanic Majesties”. E disso, mesmo passados 49 anos, não dá para discordar. Os próprios Stones lembram do disco com pouca saudades. Keith já chegou a resumir o álbum como “a lot of crap”. Não foi só um exagero de auto-crítica. As críticas da imprensa especializada foram desoladoras e muitos encararam aquele experimento como “o começo do fim” dos Stones. Estavam muito errados. Aquele era o começo da encarnação mais fulminante da banda

Para reagir ao relativo fracasso de “Satanic Majesties”, Mick e Keith decidiram voltar às raízes. Rock, blues, country. Logo no primeiro disco após a aventura alternativa, apareceram com “”Jumpin’ Jack Flash”, um divórcio dos rodeios, frescuras e abstrações. Ali não havia nada impedindo a combinação de um riff e de um refrão nascidos um para o outro. A partir daí, veio “Sympathy for the Devil” (1968), “Gimme Shelter” (1969), “Brown Sugar” (1971). Nunca mais os Stones tentaram ser Beatles. Para a sorte deles… e também para a nossa.

MAS O SGT. PEPPER’S DOS STONES É RUIM MESMO?

Dizer que um disco é inferior a “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” não significa dizer que esse disco é ruim. Talvez em 1967 significasse, mas passado o tempo e a surpresa, seria justo colocar “Their Satanic Majesties Request” em qualquer lista dos melhores discos dos Stones e até mesmo dos melhores discos da efervescente década de 1960. O que não é pouco.

Para começo de conversa, o clima era muito mais de reverência aos Beatles do que de competição. A prova disso é que John Lennon e Paul McCartney visitaram várias vezes as gravações de “Satanic Majesties” e até gravaram backing vocals para a música “We Love You”, que acabaria sendo lançada como single e não faria parte do álbum. Não havia qualquer sinal de tensão ou competitividade no estúdio. Rolava uma bagunça e um descompromisso enorme. Mick e Keith estava mais envolvidos em julgamentos e prisões por porte de drogas do que propriamente empenhados em uma missão para destronar os Beatles.

É verdade que existe uma liberdade excessiva e até cansativa em várias faixas, quando os Stones perdem a mão e ficam fazendo barulhos em vez de música. Entre as duas versões de “Sing This All Togheter (See What happens)” tem gente roncando, solos e microfonias intermináveis, Mick Jagger perguntando “quem está com o baseado?”, canções de Natal e umas batucadas que lembram brincadeiras de crianças no maternal.

Por outro lado, o disco é uma das derradeira contribuições de alto nível de Brian Jones para a banda. O virtuoso, que morreria em 1969 após ser expulso da própria banda, contribui brilhantemente para o clima psicodélico das canções, adicionando elementos inusitados para o repertório sonoro dos Stones, ou de qualquer outra banda de rock da época, como o inocente mellotron de “She’s a rainbow”.

Apesar do clima de paz e amor, Keith Richards não deixa de ser Keith Richards e emplaca um riff do tipo tapa na orelha logo na segunda faixa, “Citadel”. Para mim, uma das melhores músicas já feitas pelos Stones em todos os tempos.

Ainda vale citar “2000 Man”, que começa como uma balada folk ao violão e lá pelas tantas cresce e cresce tanto que fica com uma pegada que não faria feio nem em um disco do The Who.

Diria que é possível não apenas ouvir todas as faixas de “Their Satanic Majesties Request” sem pular nada, como até viajar um pouco nas jam sessions. Tenta aí:

Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.