Colunistas Juliano Barreto

Cadê meu disco do Ramones que estava aqui?

Acordei um dia desses com vontade de ouvir “Psycho Therapy”. Afinal, cada vez mais faz sentido dizer que “a vida anda uma loucura”. Era de manhã, estava com pressa, e não consegui achar a música (em versão de estúdio) no Spotify. Pensei que deveria estar faltando ou sobrando algum “h”, então deixei para depois e fui ouvir outra coisa.

Mais tarde, ainda com a mesma vontade, acessei novamente o Spotify e descobri que a música não estava mais disponível. Ainda era possível ouvir versões ao vivo, mas logo descobri que tanto a versão original quanto o álbum no qual ela foi gravada não estavam mais no Spotify. Todo mundo sabe que “Subterranean Jungle” não é o disco mais popular dos Ramones, mas peraí, a questão não é o disco. A questão é: Cadê meu disco do Ramones que estava aqui?

Fui perguntar diretamente para o Spotify, que respondeu com a mesma cara de pau que aquele amigo cafajeste que todo mundo já teve. Aquele que pegava seus CDs emprestados e nunca devolvia:

“Queremos que todas as músicas do mundo estejam no Spotify, mas alguns artistas e faixas ainda não estão disponíveis (ou estão em um país, mas não em outro).

Há alguns motivos possíveis para isso. Pode ser que ainda não tenhamos chegado a um acordo com o artista ou a gravadora, ou então que a propriedade dos direitos autorais tenha sido transferida.

Milhares de álbuns e artistas são adicionados ao Spotify todos os dias. Mesmo que você não consiga encontrar o que está procurando agora, pode ser que apareça (ou reapareça) em breve.”

“Pode ser que a música volte a aparecer” quer dizer a mesma coisa que pode ser que você pague pelo serviço que oferece música ilimitada em um dia e que uma das músicas que você mais gosta de ouvir, do nada, desapareça do nada e você fique na mão. 

Óbvio que o problema não é exclusivo do Spotify. Todos os serviços streaming de música —e os de vídeo também, né, Netflix?— fazem essa mesma sacanagem com o consumidor.

A resposta oficial diz que é por conta de negociações com as gravadoras. A teoria corrente entre quem acompanha as empresas de tecnologia dá conta de que a remoção de conteúdo segue os resultados de pesquisas rodadas por algoritmos. Álbuns (como filmes e seriados) que têm pouca procura não vão fazer falta para muita gente, por isso, podem ser removidos na surdina e só uns poucos chatos vão reclamar um pouco. Vale mais a pena economizar no catálogo de velharias e investir em coisa nova, original, popular, lucrativa, colorida, politicamente correta, etc…

É facilmente compreensível, pelo lado da empresa, fazer esse tipo de decisão. Difícil é um fã entender que um álbum inteiro da sua banda preferida é considerado descartável. Um dia, sem maiores cerimônias, podem decidir que a banda que você ama é irrelevante? Para que colocar a discografia toda se a maioria das pessoas só quer ouvir o “Greatest Hits”?

Pode ser que “Subterranean Jungle” volte ao catálogo do Spotify enquanto você está lendo esse texto. Pode ser que mais álbuns dos Ramones sejam removidos (Leave Home estava “indisponível enquanto eu escrevia em julho de 2017). Pode ser que algumas bandas menos populares estejam sumindo diariamente dos serviços de streaming. Pode ser que uma empresa decida o que você pode ou não pode ouvir baseado em algoritmos que visam eficiência e lucro.

Muitas possibilidades podem passar pela sua cabeça quando você quer ouvir uma música e não consegue. A única certeza que tenho é que, depois do Spotify desaparecer com o meu CD, não empresto mais nada para ele. Minhas pastas com MP3 (alguns baixados pelo Napster!) vão ficar bem guardadas. Nunca sei o que vai dar vontade de ouvir de manhã. Mas sei que eu quero decidir o que posso ouvir ou não.

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