Colunistas Juliano Barreto

Texto que (quase) ninguém lerá sobre músicas que (quase) ninguém ouviu

juliano_molina_editada1Morto em consequência do alcoolismo, aos 39 anos, Jason Molina desaparece lentamente a cada segundo. Infelizmente, sua presença como compositor e músico durou quase 20 anos sem deixar uma marca definitiva e amplamente reconhecida. É verdade que a carreira com a banda Songs: Ohia rendeu a Molina uma boa reputação no circuito independente dos Estados Unidos, mas não há um hit, não há flerte com a celebridade, você nunca ouvirá falar dele de novo. Parece que (quase) ninguém teve tempo de ouvir com o devido cuidado as construções de Molina.

Entre estúdio, palco, estrada, e a volta ao estúdio, as canções do americano de Ohio laceavam naturalmente até encontrar suas formas próprias. É preciso ouvir algumas vezes ao álbum “Magnolia Electric Co.” (2003) para entender isso.
Numa primeira audição, vem a lembrança de referências excelentes. No mínimo, soa (quase) como se fosse um disco perdido de Neil Young, em sua melhor fase dos 1970. Mas a melancolia das melodias com arranjos de alt-country trairá quem parar por aí. E muito provavelmente (quase) todo mundo para por aí.

Durante os shows, qualquer faixa do disco assumia uma forma mais livre, displicente, às vezes mais sombria, às vezes menos brilhante. Uma inconstância que desaparece completamente na versão de estúdio. Basta comparar as gravações de ambos. As oito músicas que compõem a versão original do álbum (ou mesmo as dez que fazem parte da reedição especial de aniversário) encaixam-se com perfeição que não é vista, apesar do virtuosismo, nas performances ao vivo.

A explicação desse processo foi dada pelo próprio Molina. “Música é o meu sangue. Não sei como viver sem música. Isso também deve ser um trabalho difícil para gente que trabalha com música, mas eles nunca querem deixar isso aparecer. Penso que não existem planos para a música. Você nunca vai relaxar se é um compositor, as ideias vão te assombrar até que elas consigam o que elas querem. Não há descanso para isso. Se você consegue enxergar isso como uma vocação, e atender a essas exigências, uma boa relação pode surgir. Uma situação de violência, abuso e depressão extrema também podem nascer do trabalho de compositor”.

molina2Por isso, é um desperdício não ir além do som, sem entrar nas letras. Molina entregava muito de si. Há revolta, sarcasmo, sonhos delirantes, inconformismo e, acima de tudo, a honestidade de assumir-se cansado de tentar. Fala-se não só de amores perdidos, mas do desespero de insistir em algo perdido. Logo na primeira faixa, “Farewell Transmission”, qualquer comparação com outros artistas do alt-country recente perdem sentido. “Magnolia Electric Co.” é algo muito pessoal. Não “pessoal” da forma que as redes sociais fazem acreditar serem as fotos de gatos, de pratos de comida e de variações das paisagens mais prostituídas do mundo. “Magnolia Electric Co.” não está preso aos acontecimentos, é o extrato de uma vida frágil se esvaindo.

Real truth about it is no one gets it right
Real truth about it is we’re all supposed to try
There ain’t no end to the sands I’ve been trying to cross
Real truth about it is my kind of life’s no better off
If I’ve got the maps or if I’m lost
The real truth about it is there ain’t no end to the desert I’ll cross
I’ve really known that all along

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Sobre o autor

Juliano Barreto

Juliano Barreto é jornalista e autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. Trabalhou como programador multimídia, repórter, editor e redator-chefe em diversas publicações impressas e digitais, passando pela Folha de S. Paulo, Editora Abril e Microsoft do Brasil. Entre 2006 e 2016, manteve, com a colaboração de amigos, o blog www.resenhaem6.com.br, postando avaliações de filmes, livros, discos e restaurantes —sempre em seis linhas ou menos.