Colunistas Leandro Leal

Típico Morrissey

Bigmouth strikes again

Em sua atual turnê, Morrissey canta uma das últimas faixas gravadas pelos Smiths. Nunca antes tocado fora do estúdio, o refrão de “I Started Something I Couldn’t Finish” traz o verso: “Typical me, typical me…”. Escrito há mais de 30 anos, continua descrevendo com perfeição seu compositor, que não parece ter escolhido por acaso o momento para resgatar a canção. Isso me ocorreu agora, ao ler suas recentes declarações sobre os escândalos sexuais de Hollywood. Em entrevista a um site alemão, o cantor relativizou a culpa de Harvey Weinstein e de Kevin Spacey — os principais pivôs. Ao assumir o lado dos acusados, desapontou fãs e ratificou a posição daqueles que “desistiram” dele. Mesmo tendo acabado de lançar um álbum, ele não parece se importar muito com manchetes negativas ou um possível boicote. Típico Morrissey.   

Desde sempre conhecido por não medir palavras, é costumeiramente radical na defesa dos animais e na oposição à monarquia, alvos clássicos de sua verve. Mas, nos últimos anos, a falta de filtro custou ao cantor acusações de racismo e de simpatia à extrema direita. Chamou os chineses de “sub-raça”, apoiou a saída do Reino Unido da União Europeia, cobrou medidas mais enérgicas das autoridades no combate aos extremistas islâmicos após os ataques terroristas em sua Manchester. Esses, entre outros episódios, serviram para que aquele antes tido como patrimônio britânico passasse a se visto como o tio que, no almoço de domingo, diz que bandido bom é bandido morto. Gostamos dele, mas não seria ótimo se ele guardasse suas opiniões para ele mesmo?

Polarização é a palavra que melhor define nosso tempo. Não dá para admitir que alguém que condenemos em certos aspectos seja elogiável em outros. Assim, é natural que a maioria das avaliações de Low In High School, contaminadas pela má vontade, seja negativa. Morrissey só era bom quando era um dos nossos, quando se posicionava como julgamos correto. Nesses tempos, era nosso herói, nosso ídolo. Bom mesmo seria já ter se aposentado, se retirado de cena, mantendo-se longe dos holofotes e dos microfones — principalmente os da imprensa. Afinal, depois do The Queen Is Dead, o que ele poderia fazer de melhor? Certo, talvez ele não tenha feito nada tão bom depois do antológico álbum dos Smiths, mas sua carreira depois disso — e depois do fim da banda — continuou a ser brilhante e relevante. Até hoje é.

Low In High School não deixa dúvidas quanto a isso. Não apenas é um álbum de rock muito acima da média dos lançados recentemente. Independentemente de comparações, com o seu próprio trabalho anterior ou com o de outros artistas, é um ótimo álbum. Tudo o que se espera de Morrissey está ali. Cantadas e escritas ao seu estilo inconfundível, as letras, olha só, dão até a impressão de que ele continua a ser “um dos nossos”, que está do lado certo.Low In High School é feito de chamamentos à desobediência, ao inconformismo, de manifestos antiguerra e de protestos contra o status quo e as forças repressoras — ditadores, polícia, igreja, oligarcas, indústria e, claro, monarquia. Mas também é feito de canções de amor, afinal, como nos nos lembra “All The Young People Must Fall In Love”, não importa o que aconteça, as pessoas continuam amando.

Não consigo me lembrar, na obra recente de Morrissey, de outra sequência de cinco músicas tão boa quanto a que abre Low In High School. “My Love, I’d Do Anything For You”, “I Wish You Lonely”, “Jack Is Only Happy When She’s Up On The Stage”, “Home Is a Question Mark” e “Spent The Day In Bed” são poderosas, memoráveis, irrepreensíveis. Depois disso, com o ouvinte já devidamente conquistado, o álbum passa a ousar — o que é louvável, mas também acarreta em certa irregularidade. Por exemplo, depois da linda balada ao piano “In Your Lap”, vem a bobinha “The Girl From Tel Aviv Who Wouldn’t Neel” — uma espécie de tango, carregado da latinidade que permeia boa parte das faixas, como já havia acontecido no álbum anterior, World Peace Is None Of Your Business. Mas, como acontece com o disco de um modo geral, com as seguidas audições a música melhora.

Falar bobagem? Típico Morrissey. Fazer ótima música? Típico Morrissey. Então, o melhor conselho que se pode dar sobre esse álbum é o pedido que George Michael fez no título de um dos seus: ouça sem preconceito. Porque, no fim das contas, ainda vale a pena escutar Morrissey. Pelo menos quando canta.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.