Colunistas Leandro Leal

Um disco que sobreviveu

 

A vilã Courtney e sua banda

Para muitos, o ranking dos maiores vilões da história do rock é liderado por duas mulheres. Na primeira posição, a suposta responsável pelo fim dos Beatles, a viúva de John Lennon, Yoko Ono. Logo em seguida, outra viúva, a de Kurt Cobain. Sobre Courtney Love, porém, pesam acusações mais graves. Não falta quem a responsabilize pela morte do líder do Nirvana – ainda que tenha sido dele o dedo que apertou o gatilho da espingarda em sua boca.

Aqueles que odeiam Yoko talvez não saibam – e não queiram saber – que a japonesa é uma respeitada artista conceitual, com uma carreira iniciada antes de ela conhecer o parceiro de McCartney. Os que prefeririam que Courtney estivesse no lugar do falecido marido preferem também ignorar sua importância para a cena alternativa dos anos 1990. Entre esses, quem vê algum mérito na obra de sua banda – o Hole – o atribui à contribuição criativa de Cobain. Se este texto tivesse algum cunho ativista feminista, eu poderia dizer que tais declarações se originam no machismo. Não tendo, prefiro simplesmente afirmar: é uma baita injustiça, uma puta sacanagem.

Esta quarta, 12 de abril, marcou os vinte e três anos de “Live Through This”. O segundo álbum da banda de Courtney, lançado apenas uma semana após o suicídio de Kurt, tornou o Hole respeitado. Mas, em vez de afastar, apenas reforçou as suspeitas sobre a participação do finado guitarrista canhoto nas composições. Afinal, aquela vaca drogada, que havia destruído a vida dele, não teria sido capaz de criar músicas tão foda.

Em entrevista à revista Spin, Courtney nega o alegado tom profético no título – “sobreviva a isto”. “Não era uma previsão do futuro. É, tipo, sobreviver à merda à qual eu já havia sobrevivido, seus filhos da puta! Não é sobre a morte de ninguém. É a respeito de sobreviver às porras das humilhações da mídia. Experimente… Não é nada divertido.” Desmente, também, as colaborações do marido. Segundo ela, embora ele tenha aparecido no estúdio e até gravado alguns vocais, nada daquilo foi aproveitado.

Apesar de em geral se falar de Hole e Courtney Love como sinônimos – neste texto, inclusive –, a banda não se resumia a ela. Os músicos que a acompanhavam não eram apenas uma banda de apoio da guitarrista/vocalista. O guitarrista Eric Erlandson, a baterista Patty Schemel e a baixista Kristen Stewart tiveram a tal participação fundamental atribuída ao compositor de “Smells Like Teen Spirit”. Sem eles, “Live Through This” não seria o clássico que os anos confirmaram.

Desde ontem, ouvi “Live Through This” seguidas vezes. Cada audição comprovou a força, o poder dessas doze faixas. O peso do álbum antecessor, o disco de estreia “Pretty on the Inside”, continua lá, mas agora diluído em melodias que o tornaram tocável nas rádios e na MTV. “Live Through This” é sujo, é punk, é ruidoso, mas também é belo, fácil de ouvir – desde que você goste de rock pesado, claro. Da primeira (“Violet”) à última faixa (“Rock Star”), “Live Through This” é coeso como poucos discos do gênero produzidos no período.

Courtney disse que competia com o marido, que queria ser melhor do que ele. Tendo certamente ouvido o álbum antes do lançamento, Kurt deve ter ficado com um misto de orgulho e inveja.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.