Colunistas João Botelho

Uma apologia ao fracasso

Há uma infinidade de variáveis que definem o sucesso ou fracasso de uma banda, assim como sucesso e fracasso na música, nas artes ou na vida são relativos e dependem do ponto de vista.

A obsessão com o sucesso (ou com a felicidade) é algo que me incomoda. Afinal, não existe uma única definição de sucesso (ou de felicidade). E mais do que isso: o sucesso tão perseguido e desejado por muitos pode ser uma faca de dois legumes, na expressão vicentematheusiana, e gerar efeitos colaterais como dependência de drogas, depressão e suicídio, para citar alguns que são comuns no universo artístico.

É por essas e outras que o fracasso sempre foi mais atraente para mim do que o sucesso, seja como horizonte na vida ou como característica dos artistas com quem me identifico. No caso da música, é possível _e desejável_ subverter a lógica de que sucesso significa ter legiões de fãs e faturar muito. Se sucesso significasse produzir música de qualidade, os artistas mais bem sucedidos de cada período seriam outros. Em alguns casos, haveria coincidência entre faturamento e qualidade artística, mas em muitos outros, não.

Toda essa introdução é para tratar de uma banda que, na definição mercadológica de sucesso, seria um fracasso evidente, com exposição limitada ao circuito alternativo, ainda que já tenha feito aparições em programas populares da TV americana, e apresentações pouco concorridas até nesse circuito, mas que, para mim e outros tanto seguidores, é um sucesso absoluto, a canadense The Dears.

Originária de Montreal, assim como o Arcade Fire, que seriam os conterrâneos bem sucedidos que conseguem unir faturamento e qualidade, a banda data de 1995 e gira em torno do casal Murray Lightburn e Natalia Yanchak. Viver à sombra do sucesso não parece tirar o sono da dupla, tanto é que seu terceiro álbum de estúdio se chama “Gang of Losers” (em tradução literal, “Gangue de Perdedores”), no qual está a soberba “You and I Are a Gang of Losers”.

Além desse álbum de 2006, a discografia dos Dears tem “End of a Hollywood Bedtime Story” (2000), “No Cities Left” (2003), “Missiles” (2008), “Degeneration Street” (2011), “Times Infinity Volume One” (2015) e “Times Infinity Volume Two” (2017). O melhor que a banda conseguiu nas paradas de sucesso com os sete trabalhos que lançou foi o 37º lugar de “Degeneration Street” na sua terra natal.

Por outro lado, nunca faltaram aos Dears melodias capazes de tocar os corações mais brutos, vocais melancólicos e sofridos e canções que foram se tornando emblemáticas da banda, como “Lost in the Plot”, que é facilmente confundida com algum petardo melancólico dos Smiths, a já citada “You and I Are a Gang of Losers”, “Disclaimer” e “To Hold and Have”.

Se vocês acham que este escriba carregou nas tintas, tirem a prova por conta própria.

Sobre o autor

João Botelho

Já foi de tudo um pouco na vida, jornalista, consultor, professor..., mas o que o define mesmo são três coisas: ouvir rock, andar de skate e ver o Corinthians.