Colunistas Leandro Leal

Uma confissão, algumas certezas

Começo com uma confissão. Antes mesmo de entrar no Morumbi — estádio ao qual, a cada show que assisto lá, prometo nunca mais voltar —, já sabia o que escreveria a respeito do meu quarto show do U2. O texto falaria sobre como a banda irlandesa se tornou um “guilty pleasure”, daquelas coisas que você gosto-mas-não-espalha, música para quem não gosta de música. Atribuiria a culpa à popularidade da banda, responsável por fazer de seus shows eventos com a capacidade de atrair o mesmo público das micaretas e dos protestos “Fora PT”, em quantidade e perfil. Seria mais uma crônica sobre como o comportamento da plateia, mais interessada em tirar selfies e conversar, atrapalha quem está lá para, de fato, ver o show. Já tinha visto tudo isso no último espetáculo desse porte ao qual compareci — Rolling Stones, ano passado, no mesmo Morumbi — e tinha certeza que desta vez não seria diferente. E não foi, mas foi.

Cheguei cedo ao estádio, mais de uma hora antes da apresentação do Noel Gallagher. Fazia questão de ver o ex-Oasis, cuja carreira solo muito me agrada. Quis pegar um bom lugar e até que consegui um razoável, para os padrões morumbísticos. Daria para ver a banda a olho nu, veja só. Tendo ido sozinho, pude reparar em várias coisas. Como o comportamento dos presentes não apresentava nenhuma novidade, me concentrei no telão atrás do palco. Com um aplique em formato de Joshua Tree — vegetação típica do deserto norte-americano a que o nome do álbum e da turnê faz referência —, o enorme display exibia seguidos poemas sobre a “América Profunda”, de autores como Walt Whitman, preparando para o espírito das canções que em breve ouviríamos. Muito bonito, mas só para constar, já ninguém prestava atenção.

Noel foi o que eu esperava: competente, mas sem empolgar muito. Não por culpa dele e de sua banda. Se nem algumas das preferidas dos fãs do Oasis, como “Champaign Supernova” — que Noel, inocente, garantiu que todos saberiam cantar —, “Little by Little” e “Half The World Away”, foram reconhecidas pela plateia, o que dizer do repertório solo? Serviu apenas de trilha sonora para o falatório típico dos shows de abertura e para os pedidos de “toca Jorge & Matheus” (o novo e piorado “toca Raul”), feitos por uns fanfarrões atrás de mim. O público só respondeu com empolgação aos megahits “Wonderwall” e “Don’t Look Back In Anger”. Um bom show. Melhor ainda se tivesse rolado um exclusivo, paralelo, num lugar menor e fechado. E com uma plateia que fizesse ideia de quem estava tocando. Ah, sim: quando o show ia se encaminhando para o fim, surgiu no palco um sujeito fantasiado de galinha, como esses que animam festinhas infantis — geralmente usando roupas de cachorros, gatos ou ursos, bichos mais interessantes para as crianças. Noel garantiu que aquele era o Bono.

Bono retornaria um pouco depois, com roupas um pouco menos extravagantes. A apresentação de sua banda começou em um pequeno palco separado do principal por uma passarela, expediente comum nos shows do U2. Telão desligado, milhares de braços erguidos segurando celulares, era praticamente impossível ver os músicos, exceto pelas telas dos smartphones, o que dava a impressão de que não estava vendo o show ao vivo. A perfeição com que “Sunday Bloody Sunday” foi executada aumentou essa sensação. Tirando uma ou outra alteração na letra, o clássico parecia estar sendo tocado a partir do CD “Under a Blood Red Sky”. A explicação para isso é, se não a mesma empolgação da época do álbum ao vivo (1983), o profissionalismo da banda. Bono, The Edge, Adam e Larry sabiam que todos ali pagaram uma grana para vê-los (eu mesmo desembolsei 600 golpes) e queriam fazer esse dinheiro valer a pena. “New Year’s Day”, a seguinte, manteve o padrão: impecável. Depois da sequência de faixas do “War”, foi a vez de uma dobradinha do “Unforgattable Fire”: a emocionante “Bad” foi seguida por “Pride (In The Name of Love)”. Desta vez, Martin Luther King teve que dividir “sua” música com outro homenageado, David Bowie, cuja morte Bono disse ainda lamentar antes de emendar versos de “Heroes”. Muito bonito, mas o melhor ainda estava por vir.

Desde a turnê ZOO TV, do começo dos anos 1990, o U2 faz uso inteligente do aparato tecnológico. Mais do que apenas projetar imagens gigantescas dos músicos, os telões complementam visualmente as canções, contribuindo para a imersão em seu universo estético. Quem vai a um show do U2 presencia muito mais que um simples espetáculo de música. Fomos relembrados disso quando, instantes depois, a banda já ocupava o palco principal. Aos primeiros acordes de “Where The Streets Have No Name”, as imagens projetadas atrás dos músicos nos levavam a um lento passeio por uma estrada margeada pelo deserto e por andarilhos. Começava ali o set de “The Joshua Tree”, que justificava o título da turnê e a pequena fortuna que paguei pelo ingresso. As três primeiras faixas do álbum — além de “Where The Streets…”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “With Or Without You” — estão entre os maiores sucessos da banda e foram acompanhadas por, além de diferentes imagens (todas belíssimas, assinadas pelo colaborador de longa data Anton Corbjin), muito entusiasmo da plateia. A partir de “Bullet The Blue Sky”, viriam as menos conhecidas. Voltaria o desinteresse e o falatório, imaginei. Foi aí que o pessoal, a quem eu estava preparado para dedicar este texto, me surpreendeu. Mesmo sem conhecer as músicas, os que estavam ao meu redor pareciam saber estar diante de algo que não se repetiria tão cedo — talvez nunca. A atmosfera era de respeito e reverência. Nada que os constantes vídeos e selfies pudessem atrapalhar.

Foi assim ao longo de toda a parte do show dedicada ao álbum, com a banda tocando músicas que eu nunca havia imaginado ouvir ao vivo e que, provavelmente, muitos ali nunca tinham escutado, como “Running To Stand Still”, “Red Hill Mining Town” e “In God’s Country”. Continuou até “Mothers Of The Disappeared”, dedicada às Mães da Plaza de Mayo, última faixa do “The Joshua Tree” e uma das poucas do disco que não fazem referências aos Estados Unidos. Para essa canção, Bono apresentou ao público Daniel Lanois, coprodutor do álbum, que subiu ao palco para dividir microfones com o vocalista. De arrepiar.

Acabado o set do “The Joshua Tree” e a viagem pelo coração da América, voltam os hits. “Beautiful Day” e “Elevation”, do “All That You Can’t Leave Behind”, e “Vertigo”, último grande sucesso do U2. Depois das canções para tirar-o-pé-do-chão, “You’re The Best Thing About Me”, primeiro single do próximo álbum, “Songs Of Experience”. Honesta, mas nada a acrescentar ao repertório da banda. Quando tocaram “Ultraviolet (Light My Way)”, do “Achtung Baby”, o que antes era apenas uma bela canção de amor veio revestida de engajamento, com verniz feminista: enquanto Bono não se cansava de repetir que era hora das mulheres reescreverem a história (“make HISTORY HER STORY”), o telão projetava retratos de figuras femininas ilustres. (Fiquei um pouco confuso ao ver o rosto da brasileira Taís Araújo ao lado de mulheres como Patti Smith, Frida Khalo e Anne Frank. Será que a atriz está fazendo algo realmente revolucionário e eu, pouco ligado às celebridades das novelas, estou perdendo?) Em seguida, mais uma do “Achtung Baby”, mais uma balada renascida politizada. “One” agora diz que “não há eles ou nós, apenas um”. Para encerrar, a catártica “I Will Follow”, e o palco tomado por uma gigantesca bandeira do Brasil, que estampou o telão enquanto a banda tocava.

Fim de show. Quando finalmente fui ao encontro dos meus amigos, que estavam bem atrás, mesmo não tendo pulado, minhas pernas acusaram as mais de quatro horas em pé, praticamente sem sair do lugar. Enquanto andava e sentia o ranger dos joelhos, tive a certeza: de todos os shows do U2 que eu vi, desde o primeiro no Brasil, em 1998, aquele tinha sido o melhor. Parte porque o repertório se comunicou com o meu eu adolescente, que só tirava a fita do “The Joshua Tree” do tape deck para mudar de lado. Mas principalmente porque, sozinho e sóbrio, pude prestar atenção a cada detalhe de uma apresentação irrepreensível, técnica e artisticamente, de uma banda que, se não é mais relevante pelo que produz atualmente, continua sendo pela sua história. Tive também outra certeza: já deu de shows do U2 para mim. A não ser que, em 2021, eles venham com a turnê de 30 anos do “Achtung Baby”.

(Texto editado acrescentando “I Will Follow” como a verdadeira saideira e uma nota. Fui avisado por uma leitora da razão pela qual Taís Araújo aparecia entre outras mulheres de destaque no telão. A atriz e seu marido, Lázaro Ramos, receberam uma distinção da ONU como alguns dos afrodescendentes mais influentes com menos de 40 anos. Optei por manter o texto como estava — e também por não pesquisar a razão da sua presença entre seleção tão ilustre — para preservar minha impressão de momento.)

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.