Colunistas Leandro Leal

Vozes de galinhas não-nascidas ecoam há 20 anos

Quando as vozes de galinhas não-nascidas começaram a ser ouvidas

Na primeira metade dos anos 1990, quando morava no interior de Pernambuco, MTV só era possível nas ocasionais visitas à família de minha mãe. Nessas férias em São Paulo, eu acampava diante da televisão, na tentativa de recuperar o tempo perdido.

No Disk MTV, via as mais pedidas pela garotada da minha idade: “November Rain” (ou qualquer uma dos dois “Use Your Illusion”, do Guns), “Give It Away” (ou outro dos inúmeros sucessos do “Blood Sugar Sex Magic”, do Red Hot) e… quem era aquele  feioso com um cabelo que parecia ter sido cortado pela ação comunitária? E que música era aquela, ao mesmo tempo melódica, bonita, mas raivosa no refrão em que ele batia na guitarra, como se autoflagelando por ser o verme desprezível de que falava na letra? Os caracteres no canto esquerdo inferior da tela respondiam: a banda era o Radiohead, a música, “Creep”, e o disco, “Pablo Honey”. Virei fã de cara.

Meses depois, de volta a Caruaru, tive autorização da diretoria da escola para cuidar da música que tocava nas caixas de som na hora do recreio. Eu tinha conseguido emprestado um CD promocional com o single “Creep” de alguém que trabalhava numa rádio local. Nem pensei antes de gravar a música na fita que tocaria na minha estreia na “rádio” do colégio. Mas o melhor seria ter pensado. Imagine como aquele som, que para mim já era estranho, soou aos ouvidos dos colegas, mais acostumados a ritmos como axé e forro. “Eles não gostam porque não conhecem”, eu dizia para mim mesmo. Mas não. Eles simplesmente não gostavam. Minha arrogante tentativa de doutriná-los se encerrou junto com minha experiência na rádio do colégio: ambas duraram apenas o horário daquele intervalo, depois do qual a diretoria ouviu um monte de reclamações.

Nos anos seguintes, continuei acompanhando a banda. O próximo álbum, “The Bends”, trazia uma evolução do apresentado na estreia – belas baladas agridoces com guitarras –, mas, embora o vocal de Thom Yorke tivesse passado a ser mais falseteado (influência de Jeff Buckley, dizem), “Planet Telex”, “Iron Lung”, “High And Dry” e “Fake Plastic Trees” eram “só” excelentes, não revolucionárias. Isto estava guardado para o futuro.

Em 1997, ano em que completaria 20, eu estava no terceiro ano da faculdade e, novamente, morando em São Paulo. Nessa época, como fazia anos antes com a MTV durante as férias, eu me esforçava ao máximo para estar por dentro de tudo relacionado à música, mas agora em tempo integral. Para tanto, com a internet para mim tão inacessível quanto a MTV no passado e ainda muito longe de ser o que se tornaria, eu recorria a jornais e revistas. Os títulos mais relevantes desses meios – em especial os cadernos de cultura da Folha e do Estadão – decretavam, antes mesmo do ano acabar: “Ok Computer”, a volta do Radiohead, era o melhor disco de 1997. Foi o que bastou para o impressionável universitário e estagiário juntar alguns reais do seu miserável salário e adquirir o CD. Mas, mais difícil do que angariar os fundos para comprar, só entender aquele álbum e suas vozes de galinhas não-nascidas.

Antes mesmo de saber bem o que “Ok Computer” era, eu já sabia o que ele representava. Era uma ruptura, não apenas com o que a banda havia feito antes, mas com toda a sonoridade da época. Com ele, o Radiohead abria mão da perfeição para buscar beleza no estranho, abraçando uma característica já perceptível, mesmo que tímida, desde “Creep”. A banda aproveitou o passe livre, que – diriam em entrevista anos depois – a gravadora lhe concedera depois daquele primeiro sucesso, e experimentou. Comprou equipamentos em geral usados por bandas eletrônicas, começou a mexer com programação de computadores. Mesmo com os instrumentos mais tradicionais os músicos ousaram, tiraram sons inusitados de guitarras e percussão. O resultado são as texturas e climas que permeiam todo o álbum e que definiram a identidade sonora da banda dali por diante.

Obra de virada de milênio temática, “Ok Computer” é futurista, da estética (sonora e gráfica, do encarte) às referências sci-fi – “Subterranean Homesick Alien” fala de abdução, enquanto o título de “Paranoid Android” (a música das “vozes de galinhas não-nascidas”) vem do livro “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Mas, ao contrário dos antigos filmes desse gênero, em que humanos usavam roupas metálicas e capacetes no formato de aquários, nada aqui é datado. Crônica de seu tempo, o disco trata do desencantamento de vidas absolutamente irrelevantes, trituradas pelas engrenagens da padronização. Tome “No Surprises”, tome “Let Down”, tome “Lucky”, que – não se engane pelo título – nada tem de otimista. Aqui não há espaço para essas bobagens. “É isso que você ganha mexendo com a gente”, avisam na hoje clássica “Karma Police”.

Nos anos seguintes ao lançamento de “Ok Computer”, disco após disco, o Radiohead reafirmou seu status cult, afastando-se cada vez mais do convencional e, por contraditório, conquistando mais fãs. É verdade, também, que nem todos se curvam à banda, preferindo distância de suas experimentações.

Mas eu, vinte anos depois de ter ouvido “Paranoid Android” pela primeira vez, ainda não consigo me livrar das vozes de galinhas não-nascidas ecoando na minha cabeça.

Sobre o autor

Leandro Leal

Leandro escreve, entre outras coisas, sobre música e sobre a vida. Para ele indissociáveis, os dois temas estão presentes em “Quem Vai Ficar Com Morrissey?”, seu primeiro romance. Escreveu também o ainda não publicado “Olho Roxo”. Insistente, já tem um terceiro livro em andamento.